segunda-feira, 17 de maio de 2010

LIVRO "DO REAL IMAGINADO"


A véspera

A cor é o único tempo.
A aurora já balança os galhos
e o inverno está próximo.
Narciso não abre os olhos.
outra vez, o sonho
Três lembranças do sol nas bétulas,
nove canções para vozes azuis.
A luz aninha a fronde no Lago.
O Sol está triste - não há nuvens
mas a morte chegou.

Narciso já desmaiou entre as estrelas
que adornavam a água admirada;
lançou-se nas simultaneidades
de futuro e passado, sonho e imaginação;
recebeu o Sol como a si mesmo
e as moças estrelas, incendiadas,
rolavam das órbitas de estertor e êxtase.
Hoje apenas sente, lá fora, as angulações do dia pleno.
um pesadelo que o entrega ao escuro
Súbito, abre os olhos -
por um momento,
não pensa em nada, repleto;
presságios na luz da vida.

Silêncio em tudo.
Expectativa nas folhas, alegria nas frutas.
Os pés chegam ao Lago, hesitantes.
Quinze sóis até as chuvas,
Narciso apalpa o rosto como se sonhasse um incêndio.
Curva-se ritual para a própria imagem,
recupera-se sem esperança;
nunca presenciara a despedida de um herói.

Uma sombra tolda o movimento na água:
pela primeira vez, a chuva surpreendia-o:
Narciso a pressentia nas cores e temperaturas,
sons e hábitos dos bichos; sabia-a na pele,
nos ossos, membranas;
e agora tal nuvem – sem fala
e tão corrompida.

Ele mira-se no lago trêmulo
e o rosto distorce-se.
Transparecem o orgulho, o desprezo, a arrogância;
no espelho por trás dos olhos, o horrendo:
cuspe nas rosas, lama no poço.
Imóvel sobre o Lago, Narciso
chora pela beleza desperdiçada;
lembra da mãe e de si mesmo, beleza
perdida, e chora por nenhuma amada;
as palavras estão por toda parte,
beleza comentada, e ele chora pelo Sol, único poeta.
Ri triste como os homens.
Lágrimas de amor, seus últimos olhos.
Amanhã, morrerá.



RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRÀ Cristina Souza



neolítica


a serra é um estado da memória



(



a rocha
poliniza-se
roxa
e na transparência porosa
volteia
asas e pétalas corrosas



)



aqui
uma mariposa lítica
é a poesia
e deixa
à margem do papel
a plumagem por testemunho



BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBAo Antônio Moura

segunda-feira, 10 de maio de 2010

LIVRO "DO REAL IMAGINADO"


Brinquedos

Não estava acostumado
com televisão,
e o Falco foi massificado:
um precursor do Rambo.

Desembrulhado, porém,
o herói era estático
como plástico
e o menino sofreu
de publicidade.

II

A boneca
ou o Soldadinho de Chumbo
têm que realidade,
agora que só os lembramos?

Que palavra de verdade
dizer ao Saci de pano
com quem numa gaveta
topamos?

III

Primeiro ela sente o cheiro
da caixa: patchouli
envelhecido.
Retira a Emília de pano,
e cuidadosamente absorta
lava-a: corrige cada
pequeno furo
ou imperfeição:
perfuma-lhe
e enlaça o cabelo.
Quando era criança,
falava mais que a boneca;
hoje, apenas chora,
chora, chora cuidadosamente,
e a Emília de novo lhe sorri.



O Andarilho

Carlitos fora visitar Alberto Caeiro
e Fernando Pessoa o fizera esperar.
(Disse-me que só em Portugal
o lirismo pôde um dia virar cristal.)
Quando Caeiro acenou,
poeta situado a meio do outeiro,
Carlitos também viu odes campestres
A brincar com sensações.

*

Pinóquio manda da Terra-do-Nunca
poema para Wendy em Macondo:

“Duas borboletas voam para o alto, para o alto,
para se esconder do sol entre as estrelas...”

Wendy responde, do País das Maravilhas:
“Você ainda tem
espinhas no rosto?”

*

No inverno, Iessiênin percorre a cidade,
até o bar das goteiras;
tenta namorar Ofélia, que tem medo;
Maiacóvski às vezes aparece
e briga até com Cecília Meireles;
hoje, do nada, Ofélia pergunta:
“Que é feito de Isadora Duncan?”

*

Haurir a imaginação
feito a memória de Borges
através do xadrez de estrelas;
entregar a órbita do menino
que há séculos passou por mim
e até ontem me buscava.



Ao lado do cisne

“- A água fenece, brota:
o tempo de uma borboleta.

Tua forma
é como o vôo do urubu

estarão contigo
estes fogos de estrelas.

Eu, por mais de um rio
lastimei a vida, lamentei o amor;

cantas antes de morrer.”

segunda-feira, 3 de maio de 2010

LIVRO “DO REAL IMAGINADO”




Antes de amanhecer


rrrralvorrrrrrrrrarco

rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrlua lançada

rrrcrescente vazante

rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrnosso b

rrrrarcorrrrrrrrrrralvo:


frrrrrrrrflecha
rrrrrrrrrrrrrrrrrre
rrrrrrrrrflexa


rrrrrrrrralva

rfrà beira de Belém.


rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrvvvvvvrrrrrrrrrrrrrrrrrrÀ Daniela



Do Éden

Ave
bbbbbbbanida
que se arrasta com seu êxtase


na origem do Tempo


Eva deixa de novo
os cabelos crescerem.




Na eternidade

- Lembro que eras pedra
e eu, vento,
e milhões de anos depois
falei: "Pode abrir os olhos!”
e viste o mar.

Diazinho inolvidável:
tomaste, na areia,
minha primeira Helena
e distribuímos o mar
entre deuses aparvalhados.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

LIVRO "DO REAL IMAGINADO"


fffffffRol de ímãs
fffffffffmanhãs
fffffffrolimãs do firmamento

água fremida,
fendida
ffffffffffffffffffffffffromãs
broto na estrela
ativa

fffffffnaturo
fffffffffffpalavra
fffffffrebento
fffffffffffviva

fffffffuniverso




interior

o rio corre em teu rosto
onde inda brilha o sol posto

o rio dorme em tua face
e cada estrela que nasce

banha-se a lua na rede
te acordo: tenho sede




Canção de noite

Tempo sem foz, o universo
palpitava, apenas,
para chegares:
entre os arbustos.

“Vai chover!”, disseste.

E eras o primeiro pingo,
lágrima alegre.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


61 - Improviso com tempo


Se o tempo fosse uma bola, eu teria oito anos e seria “gandula de estrelas”. Se fosse uma árvore, eu retornaria, com mil anos, para a beira do rio.

Se o tempo fosse uma cidade, eu compartilharia cevada e lúpulo. Se fosse o mar, eu incitaria um turbilhão de sereias.

Se o tempo fosse um poeta, eu quereria distância.

Se o tempo fosse tão somente a água, o mel não teria memória; se fosse vácuo, eu voltaria a voar.

Se o tempo fosse a mulher, eu investiria brusco e humilde; se fosse o filho, não haveria morte.

Se o tempo fosse um poeta – se o tempo fosse o Tempo - eu ficaria longe.

Se o tempo não fosse cego, eu seria um samurai; se não fosse neutro, eu seria pedra.

Se o tempo não fosse o homem, eu me converteria à obra; se não fosse em mim, eu desenterraria uma nova roda.

Se o tempo não fosse palavra, eu seria música; se não fosse o silêncio, eu não ouviria. Se o tempo não fosse o fim sem fim - se o tempo não fosse, simplesmente.

O cotidiano todo dia me vira a cara: se o tempo fosse, se o tempo não fosse, se fosse e não fosse, senão.

O tempo é o nada que é tudo e o tudo que é nada.

O tempo é o único deus de si mesmo.

Vou andar oitenta anos até entender o tempo.

Vou nadar oitenta anos até aceitar o tempo.

Vou vencer o tempo por um segundo.

Vou banir o tempo com a música; a música é a arte preferida do tempo.

O tempo é o único que é, no espaço; eu, sou e não sou; acima da linha do mar, fico da altura do tempo.

O tempo existe quando não existe; eu, penso. O tempo não pensa, logo, existe.

O tempo é o mais charmoso vilão de Quentin Tarantino.

O tempo até hoje lê o Sítio do Pica-pau Amarelo.

Escrevi quatro poemas sobre o tempo, que os ignorou.

Não vejo a hora de acertar as contas com o tempo.

O tempo detesta o domingo - a abrir e abrir as semanas fatigadas (que o contam), uma atrás da outra, portas num casarão infinito. (Se o tempo fosse o homem, sofreria até o não-fim.)

Dedico este domingo ao tempo.

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


60 - Água

Este relato se passa no ano cem mil e quatorze anos depois de Cristo, mas serviria melhor ao século XXI.

Por uma daquelas inexplicáveis circunstâncias da política, o futuro presidente do Universo Conhecido era Edward Lydon, escultor de apenas dezessete anos. No dia da posse, horas antes de discursar para dois trilhões de seres em duas galáxias, Edward apagou as luzes do quarto com um dispositivo cerebral (instalado em seu corpo cibernetizado) e entregou-se a um banho de vapores vertebrais: vapores perfumados, coloridos e de temperaturas variadas. O jovem ergueu-se do banho de olhos fechados e, sem acender as luzes, andou em direção ao pátio do enorme apartamento flutuante (como uma plataforma espacial). Quando chegou ao pátio, sentiu as luzes se acenderem sozinhas, abriu os olhos e viu, através do vidro, um corpo celeste produzir lá fora um clarão - Edward baixou a cabeça e teve uma visão, que se passava centenas e centenas de séculos antes: uma moça banhava-se em água corrente, num planeta que só podia ser a Terra.

Edward (ao contrário de quase 100% das pessoas) já fora à Terra e vira o rio Amazonas, ou o que restara dele, e assim pôde reconhecer o cenário da própria visão: o riozinho parecia canalizado diretamente nas gordas nuvens entrevistas sobre as copas das árvores; a água percorria a pequena cascata de pedras até chegar a uma grande rocha; ali formava um pequeno lago, que transbordava sobre a rocha e sobre a moça.

Edward sabia que era uma visão, não um sonho, e que não era um simples delírio, mas uma revelação.

Ele revia a imagem como um profeta, e sabia que o rio (o tempo) encharcava o corpo da moça sem arrastá-lo, minava a pedra sem dissolvê-la; de tal forma que as impregnava de uma substância eterna parecida com musgo. Assim (sem a mediação do tempo) a menina banhava em êxtase, e aquela água banha-a até hoje, e tal certeza ninguém tiraria de Edward. Mais: ao recordar depois a visão, o jovem sentiria algo que nunca vira ou experimentara, e não sabia de onde vinha, a não ser da ancestralidade que já durava cem mil anos: Edward compreendia o rio que banhava a moça como se ali passara a infância, e sentia até o limo frio que a água criava nas pedrinhas, ao roçá-las incessantemente pelo fundo.

Em menos de duas horas, Edward se tornaria o homem mais poderoso do Universo. No entanto, se comportava como o escultor. Arroubado pela juventude, ele fez então o que nem a política explicaria: discursou de improviso no evento mais importante do ano. Gastou longos minutos explicando o que era a água e os benefícios que, no passado, trazia ao corpo. Falou de como ainda hoje parte da angústia humana era provocada pelo desconhecimento da água (cujas funções no corpo foram substituídas por outras substâncias ou programações cibernetizadas). “Caso o ser humano volte a ingerir água regularmente, se curará da melancolia que atinge a espécie em tantos planetas...”, escandalizou Edward a todos.

Ora, caro leitor, Edward Lydon não seria um presidente de fachada. Era um jovem extraordinariamente dotado. Só se aceitou sua condição de herdeiro (até atingir a maioridade para o cargo, de 25 anos) porque todos o amavam. Mas aquele súbito elogio à água poderia ressuscitar um antigo e insensato projeto: reproduzir a natureza terrestre noutro planeta, infinitamente maior; e a um custo que poderia comprometer projetos com os quais já estavam comprometidos tantos parlamentares e governantes de países e planetas.

Após o discurso, Edward recolheu-se com familiares, amigos íntimos e membros do poder. Anunciou que só voltaria no dia seguinte à que já era a palavra mais falada do universo: água. A despeito do sufocante assédio de que era alvo, não demorou a isolar-se no quarto enorme - pensando em como encontrar a moça, a fonte, o sol, as árvores, o limo das pedrinhas no fundo do rio.


segunda-feira, 12 de abril de 2010

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


59 - Aparelhagem

O pai de Carlo, Genaro Miaggi, migrou do interior de São Paulo para o interior do Pará com espinhosa missão: superar uma desilusão amorosa, pela qual tentara matar um primo. Na Vila Concórdia, refez a vida: casou-se com Alda Kobayashi, inventou um sistema de manejo de gado (para terras sem água natural) e, em poucos anos, transformou leite em iogurte e montou o primeiro posto de gasolina. Carlo, filho único, cabelos claros e olhos castanhos e “puxados”, foi tristemente tímido na infância, mas melhorou na adolescência entre os carros no posto (às vezes como frentista) e aprendeu a dançar em festas populares. Aos 17 anos, veio morar, a contragosto, em Belém – o pai montou um equipado posto de serviços no Marco e parte da família transferiu-se para o bairro. Meses depois, o tio de Carlo que administrava os negócios na Concórdia acidentou-se, e o garoto foi enviado à cidade natal para ajudar. Em Concórdia, trabalhou duro no escritório, tratou com bancos e fornecedores e com os grandes clientes do posto. Um dia antes de voltar para Belém, compareceu a uma divulgada festa de aparelhagem. Na festa, típica daquele início de anos 80, Carlo conheceu Ana Carolina, que já o conhecia.

- Vi você no posto. Minha tia fala muito sobre sua família - disse Ana, apresentada por uma prima. - Nasci em Paragominas, mas moro há três anos em São Bernardo, interior de São Paulo.

(São Bernardo, de onde Genaro Miaggi migrara para a Vila Concórdia.)

Carlo e Ana Carolina logo começaram a dançar. Duas horas depois, saíram da festa, e se beijaram e beijaram embebidos por bilhões de estrelas. Ana estava não corada, mas brilhante, um brilho de dentro para fora, de tal forma que se afastou de Carlo e retornaram para o salão.

Dançaram outra vez de tudo, e se beijavam sob as luzes apagadas, e também sob as luzes acesas, Ana se recusava a voltar lá fora, para a privacidade estrelada, 'Celebration', Donna Summer, e ritmos caribenhos (a voz do Caribe, negra-marfim, era tão metalizada que se imantava: voz que saía das paredes sonoras da descomunal aparelhagem e se grudava - se atraía pelos ímãs - nos minérios em geral pelo salão). E foi o Caribe que grudou Ana e Carlo, mas não um ritmo quente, e sim uma balada: a balada mais linda que ouviriam.

O minuto que não se apagará no tempo - o que guardaremos na memória - é sempre a síntese de bilhões de minutos, situações, sonhos e sentimentos. Mas esse processo de circunstâncias precisa de um desfecho (fechar o ciclo) e, aí, elementos até bem fortuitos desempenham papéis extraordinários. A balada caribenha - metalizada, imantada, ritual - tornou-se inesquecível por três situações íntimas entre si: os beijos do casal adolescente; o fato de que, já de madrugada, o corpo precisara do auxílio do corpo para varar a noite, e eles receberam aquele respiro de adrenalina que nos redobra a energia e clarifica os sentidos (no caso, passaram a 'sentir' mais a música, o andamento, as belezas sutis); e, por fim, o suor.


Carlo e Ana Carolina estavam tão apaixonados que, até ali, é como se não tivessem se apercebido do suor: grudados, mas sem se importar, encharcados do próprio cheiro, sem se aperceber: durante a balada, tomaram consciência (sem uma só palavra) do suor a misturar-lhes, a uni-los para além do corpo e do acaso, e, eu diria, tiveram não consciência, mas uma iluminação - compreensão tácita entre si, sem palavras - dos próprios cheiros a defluí-los no vento, eternizando-os, aquele suor tão íntimo quanto um toque, e esse esfregar-se, empapar-se mútuos sem nojo, sem refluxos (ao contrário, cheiravam-se como a esbanjar-se) tornou-se tanto mais memorável por outra providencial iluminação e, quando a balada caribenha deu vez a outra, Carlo e Ana, sem palavras, fugiram da festa para o turbilhão de estrelas.