segunda-feira, 25 de maio de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


21 - Fresta


Nas três estrofes de “A volta do malandro” (1985), Chico Buarque sintetiza uns 500 anos de Brasil: “Eis/o malandro na praça outra vez/caminhando na ponta dos pés/como quem pisa nos corações/que rolaram dos cabarés”. Mais à frente, este pisar macio, na ponta dos pés, “anda assim de viés” (um “penetra”) entre parangolés e patrões. No final, nosso personagem “corporal” sai da restrição de salões e cassinos para brilhar ao ar livre: “deixa a praça virar um salão/que o malandro é o barão da ralé”. (É de se notar esse “volta” do título, ao mesmo tempo o malandro que retorna e o que “dá uma volta” em alguém.) Cerceado pela ditadura militar, o elepê “Sinal Fechado” (1974) traz Chico cantando só músicas de outros autores; a cedida por Caetano Veloso, “Festa imodesta”, exalta o compositor popular em tempos de censura, e revela que “toda festa que se dá ou não dá/passa pela fresta da cesta e resta a vida”. (Em letra sobre “Os Trapalhões” - o quarteto de humor, “humor brasileiro” -, Caetano fala em “jeito de corpo”.) Recorde-se que em “Sinal fechado” Chico gravou, sim, uma música própria, “Acorda, amor”, mas assinada por um tal Julinho de Adelaide, que nunca existiu. Nela, um sujeito de sono atormentado repete “Chama o ladrão!”, porque chamar a polícia poderia ser pior. Essa afronta à ditadura só passou, claro, pela censura porque Chico utilizou a “fresta” do nome falso (fresta que se tornou uma das principais características de sua obra). Eis algumas sínteses de um certo Brasil irradiado a partir do Rio de Janeiro: a progressão do malandro que pisa macio, e entre as classes sociais “anda assim de viés” com seu “jeito de corpo”, e dribla as dificuldades e usufrui por meio de “frestas”: a praça então “vira um salão” numa “festa imodesta”.

Mário de Andrade atestou que a mais original contribuição do (povo) brasileiro à cultura planetária é a música popular. Mário não vivenciou outra contribuição extraordinária: no futebol. Veja bem, leitor: todo esporte arrebata, estica ao extremo as cordas cordiais, e às vezes em minutos nossa vida ganha uma intensidade não experimentada em meses; acontece que o esporte do Século XX foi o futebol, aquele que rendeu ídolos maiores que os do boxe, o único que enlouquece em massa quase todos os países: pois nesse esporte de histórias surreais, nesse esporte pelo qual milhões estão dispostos a matar e a morrer (e matam, e morrem), justamente o brasileiro é a referência insopitável.

É tanta moral que mudei de parágrafo, a saborear melhor: o brasileiro (o jeito de corpo, a ginga, a pisada macia, o viés, o samba – o drible) foi lá e transformou o futebol em arte: arrebata pela adrenalina e pelo prazer estético. Os antigos falavam de pão e circo, entendido o circo como uma forma de “dar uma volta” no povo e fazê-lo esquecer a fome. O futebol não admite tal máxima (você tem fome de quê?), pois futebol é filé mignon, ou melhor – é ao mesmo tempo o filé e o balé.

E, no futebol, quem melhor expressa esse jeito no corpo é Romário.

Quando a bola fervilha na grande área, e todos se desestabilizam, Romário é o único frio, e se não houver espaço, ele inventa, e se não houver distância, ele cria uma vertigem, e se não houver como alcançar a bola, ele apenas enfia a chuteira entre as pernas adversárias. Romário faz gols por “frestas”, clarões enxergados ao longe ou em algum cantinho, e ali ele aplica um estampido ou uma bicudinha, é isso mesmo, uma bicudinha rasteira, sem apelação. Já o vi, de costas, deslocar a medula de um zagueiro; já o vi, prestidigitador, mundiar tanto um goleiro que este botou a seus pés a bola que já estava segura. No início, Romário não tinha dinheiro para ir treinar; aprendeu então a “fresta”, jeito de corpo - pular a roleta do ônibus, descer pela frente -, igualzinho a Chico, quando pressionado: deu um jeitinho como o brasileiro, “Julinho de Adelaide”, que passa fome, mas abusa de um dos manás do planeta.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


20 - Esportes: superação

Os desfiles das escolas de samba têm um lado kitsh, exagerado, às vezes caricato na grandiloqüência: faz parte da catarse, de nosso extravasar desregrado, da “carnavalização”. O desafio a se temer, na abertura dos jogos Pan-Americanos do Rio, era a transposição descontextualizada, para o estádio, desse lado quase bizarro do carnaval. Pois o samba, elementar, seria o mestre da cerimônia.


Arrisco que o samba é a maior contribuição do Brasil para a cultura planetária – ao menos do Brasil por ele mesmo, pelo povo. A maior contribuição do “brasileiro”.

Sem exageros: a dança samba é tão complexa que revoluciona a relação entre o corpo e os ritmos. Como diria Tom Jobim, o que balança na música é Brasil, Estados Unidos, Caribe, Cuba. “O resto é valsa.” Só o Brasil, no entanto, sintetizou, no corpo, correspondência tão profunda entre um ritmo (samba) e uma dança (samba). Não há dúvida, leitor: primeiro, divida, na imaginação, a orquestra de quinhentos músicos percussivos, os tipos de instrumentos, as funções harmônicas e os naipes de batuque; agora divida (isole), para facilitar a vista, em várias partes o corpo de uma passista em ação: braços, pernas, quadril, cabeça, pés; observe cada parte sambar isoladamente - os cotovelos, o sorriso, os artelhos; agora junte as partes aos poucos - pés com pernas, omoplata sambando com pescoço; e aprecie então o corpo inteiro em harmonia, cada centímetro coordenado, tomado pelo samba (a orquestra desatinou), dança do sangue, samba.
Era o Pan do Rio, mar e montanha, cidade negra, morena, Zona Norte, Zona Sul, “mané é mané”. Superação, alvoroço em ebulição. (Bossa é saber pisar.)

“Superação”.

Nenhuma palavra cabe melhor ao atleta, a não ser a palavra “biótipo”: “superação”.

Hortência não seria um mito do basquete, se não tivesse a constituição genética rara; tampouco, se não treinasse horas e horas dia após dia, mês após mês. Vontade, disciplina, garra, valentia – fraturas, tornozelos torcidos, tendões rompidos – biótipo e superação, eis justamente por que amamos os atletas, mais, por que chamamo-los de heróis.

É comovente o aplauso, nas ruas, aos que se aproximam do final da maratona, o corpo a se esvair para ter energia, feixes de dor, todas as regiões do cérebro prestes a pegar fogo: o grande atleta é aquele que, diante de si, a cada passada, a cada segundo supera desafios gigantescos. Daí nosso transbordamento.

E é preciso voltar alguns milhões de anos no tempo, e recordar que o corpo mais veloz, ou mais forte, ou mais “inteligente” (o dos atletas) é justo o tipo de corpo que resistiu à seleção natural das espécies: que sobreviveu à guerra incessante pela vida. Nos esportes, projetamo-nos, de forma inconsciente, naqueles nascidos para viver mais.

Sobre os desafios da cerimônia de abertura, a carnavalização se deu na medida certa (“tropical”, altissonante), sem botar a fantasia na frente do samba, sem botar o samba na frente dos esportes. Belo momento: a alma dos atletas estrangeiros jamais esquecerá o compacto corredor brasileiro feito de pandeiro, surdo, tamborim e o corpo dos nossos nunca esquecerá o momento em que o samba ecoou tão poderoso que é como se acabasse de eclodir (ou explodir) na natureza.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


19 - Você não existe

Na padaria, a primeira coisa que ouvi foi “Não existo, não existo, não existo!”. Duas horas depois, tornava-me amigo daquele que seria um dos personagens mais birutas de tudo.

- É fácil provar que você não é você! – Carlitos Chagas disse de cara, rindo. - E tudo isso que você vê não existe, é só ilusão.

Ainda eram dez da matina, pedi café-com-leite, pão com queijo derretido na chapa, e me pus a ouvir.

- O que julgamos ser é apenas nossa região mais rasa - lembrava Carlitos. - O problema é que nossa região mais profunda, desconhecida, é muito maior e mais poderosa, e nos condiciona. Ou seja, não temos autonomia, somos determinados por um desconhecido, não existimos.

Mais:

- Veja, ali na esquina, o posto de gasolina. Violeta, preto e marrom. Ao motorista ocasional, o posto abastece; ao artista plástico, as cores contrastam; ao dono do posto, o negócio dá lucro; ao fornecedor, a praça é boa; ao empregado, o posto é o lugar em que, talvez, já faça tudo mecanicamente. O posto, portanto, não existe, ou não existe fora de nós. Como, de resto, toda a realidade. O que chamamos de real não o é para a árvore, ou para a pedra, mas apenas ao homem. Como em nós torna-se sempre outra coisa (a “mesma” realidade é diferente em cada um) nada existe de fato, apenas as alegorias, os símbolos, as ansiedades, os valores que atribuímos. A realidade somos nós, nós que não sabemos quem somos.

- Mas há uma realidade em si - objetei, já virando o primeiro chope. - É impossível negar que existe uma espécie de zona neutra, chamada real, que aceitamos como confiável para todos, na qual acordamos, vamos ao cinema, trabalhamos.

- Será mesmo? - questionou Carlitos. - Será que o que chamamos de real é igual para todos, é, digamos assim, imparcial? Talvez o pior de nossa aparência nem seja o lado desconhecido, mais profundo, e sim a manipulação da fantasia, a mentira. Convivemos, sem saber, com gente que mata, estupra, tortura, conscientemente. Não é apenas nosso inconsciente. É o que disfarçamos, escondemos, fingimos, mentimos, enganamos, ludibriamos. Isso atinge todo o espaço, todos os objetos, o cotidiano.

E haja exemplo:

- Digamos que um operário sempre chegue ao trabalho e troque de roupa no banheiro. Em certa manhã, alguém diz, brincando, que pode haver uma cobra no banheiro. Colegas confirmam, e nosso operário desiste de entrar. Troca de roupa noutro lugar e passa o dia evitando o banheiro. Toma cuidado até ao chegar perto da porta. Aquele lugar, tão familiar, tornou-se ameaçador. E era apenas uma lorota de companheiros bem-humorados. Como confiar na realidade, se grande parte dela é fundada em inverdades semelhantes? E você já parou pra pensar que o ser humano só acredita no que quer? Não nos interessa a verdade, mas o pitoresco, o interessante, a fofoca.
Passei, claro, a encontrar Carlitos Chagas com regularidade, bebendo de sua mistura de clichês filosóficos, alguma idéia própria e bastante birutice. O pior é que sua crise de irrealidade se agravava. A cada mês, ele tinha uma aparência diferente. Disse-me que, se já não existia, podia ser qualquer coisa. Arranjou várias namoradas de uma semana, e não sabia se o queriam de fato ou estavam iludidas pelos personagens que representava. Que diferença fazia?

Numa bela tarde, Carlitos disse-me que um cientista o entrevistara por dias seguidos (fez uma anamnese) e o descreveu como o primeiro caso do que seria, de fato, um homem pós-moderno: aquele de identidade tão fragmentada que se sentia despersonalizado, e por isso desejava e mesmo acreditava ser tudo.

Quinta-feira passada, reencontrei Carlitos - seu modelito lembrava uma fantasia de carnaval - triste, arrasado mesmo. O que foi?

- A única coisa que eu tinha certeza de ser era o primeiro caso descrito do homo global. Pois não é que apareceu outro cientista, afirmando ter descrito, antes, caso semelhante, e com um personagem argentino?

Carlitos então abriu um sorrisão e saiu, vermelho de feliz, com ar descarado. A história do homo global era só outra viagem pesada.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


Máximas para tornar-se humilde

A – Ao acordar, lembra dos gênios de tua área – Mozart, Stálin, Mané Garrincha; se não resolver, lê qualquer página do Machado de Assis.
B – Ao dormir, pergunta: teu dia hoje foi, de fato, o mais importante da História?
C – O espelho não mentiu: abundam egos duas vezes maiores que o teu.
D – É preciso que te entre na cabeça: vais morrer.
E – Não há dúvida: a arte em nada se parece com as profundezas do teu umbigo.
F - Sê solidário pelo menos duas vezes na vida.
G – Teu tipo boêmio é um dos mais ridículos da civilização.
H – Aceita: correste décadas atrás de quinze minutos de fama.
I – Bebe menos: o álcool separa os blocos de gelo da consciência, e, separados, estes blocos produzem uma nova consciência, icebergs que se dissolvem chocando-se entre si, num legítimo delirium tremens.
J – (In Memorian) Não tentes brilhar mais que Lúcifer.

Respostas à dor-de-cotovelo acima

A – Todos os gênios antes de mim morreram.
B – A História será minha obra pos-mortem.
C – Espelho meu só admira: caladinho.
D – Será um paraíso: a Morte ofereceu tudo o que eu queira.
E - Pior é imaginação de perna curta.
F – Minha solidariedade é o Imposto de Renda.
G – Não tenho auto-estima, tenho alta estima: a paciência é que se esgota.
H – Todo dia o Tempo me convida pra alguma coisa.
I – Beba mais.
J – (In Vitro) Deus tenha muita piedade de ti.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


17 - Meu pai e João do Vale

Quando eu era pequeno, meu pai, Antônio Coelho, chamava de “vagabundagem” a maioria dos prazeres. Isso incluía o futebol e todas as artes, com marcação cerrada em música, dança e “literatura”: bolsilivros de bang-bang e espionagem, Brigite Montfort, Gisele, a Espiã Nua que Abalou Paris. (Adulto, descobri que a maioria dos bolsilivros da época era de um só autor, o brasileiro Riyuki Inoue, recordista do Guiness com mais de mil títulos publicados.) Vida dura, pelos interiores de vários Estados, meu pai mudava-se com a família às vezes de mês em mês, destemido, e assim constituía riquezas e, de um golpe, perdia tudo. Basta dizer que, após morar numa centena de municípios, foi parar na selva amazônica, 1972, a 75 quilômetros de Altamira. Um homem com tal têmpera não entendia de primeira porque uma cidade cantava “Eu hoje quebro esta mesa/Se meu amor não chegar”.


Esse Antônio Coelho de Oliveira, que beira os 81 anos, recebe na Cidade Nova, por algumas semanas, o irmão Sebastião, 83. Tenho certeza de que ambos ultrapassarão os 100 anos, meu pai falando sem parar, meu tio a ouvir de forma infinita, mas agudo de esperto e, quando preciso, entrecortado de frases sem piedade. No sábado passado, para provocar a memória dos irmãos, levei o “som” pra varanda e botei a última paixão de meu pai, o CD “Tião Carvalho interpreta João do Vale”, com músicas-retratos-histórias-paisagens do Maranhão de cinqüenta anos atrás. (O Maranhão que meu pai vivera de forma tão abrupta, jovem sobre os lombos dos cavalos que comerciava, indiferente a qualquer refrão e qualquer cantor.) Os personagens das canções de João eram antigos conhecidos que voltavam à memória de seu Antônio e seu irmão; e as músicas, sim, eram também as mesmas daqueles tempos, seu Antônio ouvira-as pelas ruas, mas sem ouvir, não lembrava de um só verso (minha mãe lembrava de todos, e foi a primeira a se encantar quando presenteei o CD). Meu pai, que, por desconhecimento, atacara a arte em nossa infância, tinha, por arte das mesmas canções que combatera, o passado de volta e a graça da vívida nostalgia.

De uma varanda da Cidade Nova, os irmãos octogenários embarcam no trem de uma música de João do Vale, trem que tomaram tantas vezes. As cores dos vagões, a poeira, a precariedade total: “Atrasava tanto que mais certo seria dizer que não tinha hora pra passar”, meu pai falou para o irmão aprovar. Quando Nara Leão trocou a bossa nova pelo samba de morro – trocou a beira do mar pelo subúrbio do Rio –, no final dos anos 60; e artistas como Glauber Rocha buscavam uma estética e um “Brasil profundo” não apenas no subúrbio, mas nos sertões, ou melhor, na mitologia assombrada dos sertões: quase assombradora foi a aparição de João do Vale no palco Zona Sul do Canecão, descalço não como um universitário “descolado”, mas como um agricultor que não tivesse sapatos: os dedões que toparam com pedra a vida inteira, João negro, entroncado como uma árvore que crescesse não para o alto, ou para o lado, mas para dentro da própria dureza, e era sem dúvida assombrante aquele homem soar tão emocionado, aquela voz gretada soar tão sensível e confortadora, aquela aparência encarapaçada de tatu peba tornar-se insopitável porta-voz do erotismo, ambivalências de baião com malagueta. Meu pai infindável, a quem é tão clara a palavra “vencedor”, meu pai que fará cem anos em duas décadas, meu pai e João do Vale, que se tinham encontrado, sem se ver, nas ruas e veredas do Maranhão, se encontram agora para sempre, por tal arte de João que soa não na memória, mas na alma: um jeito de ser que não será esquecido na “alma brasileira”.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"



16 - Neoma

A passagem do tempo sobre nosso esqueleto é a mais triste das condições para a vida. E a natureza não olha pros lados: para que minha filha Neoma festeje quinze anos, preciso ter quarenta e dois; o tempo que lhe se lhe dá é o que me esgota. Amar o filho é cuidar para que sua vida se desdobre e cumpra, enquanto a nossa busca o sossego dos atalhos. Quinze anos, quinze anos, eu também tenho quinze anos, pois ontem mesmo falei que jamais teria quarenta e dois, e sonhava incendiado de convicção, e só agora percebo que o tempo é a mais silenciosa de nossas tragédias.


Ofereço, Neoma, em teus quinze anos, o melhor dos meus quarenta e dois, qual seja, algumas palavras que ganhei contra o tempo, que nos dão a ilusão de estar fora do calendário, acima da vã matéria: palavras como “amor”, “amizade”, “arte”, “Neoma”, “água”, “sabedoria”. Destas, basta comentar “sabedoria”, não minha, que a idade não a produziu, mas dos povos, da civilização: na forma de três ditados eleitos pela memória de centenas de gerações.


Dois dos ditos equilibram a vida num terrível alerta: “Nos menores frascos, os melhores perfumes”; “Prefira um minuto de intensidade a mil anos de banalidades”. O melhor perfume é raro, devotado às constelações, daí o frasco menor; o raro é o intenso, o profundo, o inesquecível, o momento que contém milhões de outros; uma gota de bom perfume vale mais que um garrafão de lavanda. A intensidade implica riscos, escolhas; enfrenta-los é assumir mudanças; a mudança traz dor - mas revela o novo, o desconhecido. O que te dizer hoje, filha, senão isto: que vivas intensamente, que assumas os riscos, nesse tempo de intensas mudanças, que não temas o abismo da gota do melhor perfume, que estejas atenta à banalidade, mas não em troca só de um minuto (tendo a alma aberta e o coração bom, a vida concederá ótimas temporadas), enfim, aproveita a vida, mas te cuida, cuida da noite e do dia, da manhã e da tarde, que já passei da idade de integrais preocupações.


O minuto de intensidade jamais será esquecido - em torno dele gravitam bilhões de minutos –, e para depurar uma gota de perfume gaste-se o estoque de acetato com baunilha. O intenso não apenas enfrenta o tempo, como o vence, cristalino, intacto, em nossa memória. O intenso se prolonga. Preserva-se. O intenso rende, multiplica-se. Daí que a profundidade da experiência – ainda que resumida num segundo – é a melhor forma de se pôr a salvo do tempo silencioso.


O terceiro ditado combate o tempo naquilo que ele tem de melhor (o tempo de criar é o mesmo de destruir): “Plante uma árvore, tenha um filho, escreva um livro.” A árvore, além de durar milhares de anos, se prolonga, vive nas folhas das sementes; o filho levará (não é, Neoma?) nossa linhagem a outros milênios; o livro pode imortalizar o nome, o Eu. Nesse terceiro ditado, o corpo humano fica como o corpo das palavras, nosso sangue, como a seiva das árvores, como os filhos que a vida nunca deixou de convidar à sua festa. De certa forma, aí nos imortalizamos fisicamente.


Tudo isto é sonho, claro, como a vida o é das células e das seivas (apenas os sonhos da natureza duram mais); assim, quero te ensinar hoje, Neoma, outro truque contra o tempo, outro sonho: a esperteza da imaginação. Esta crônica é publicada no jornal de amanhã; hoje é sábado e a leio no jornal de domingo; garanto que jornalistas e gráficos não anteciparam a produção; eu é que fui ao futuro e voltei, com este caderno, e o coitado do tempo até agora procura por mim. Tá ligada, né?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


15 - A Mãe da Cidade Velha

Não era à tarde de um domingo ou feriado, quando a Cidade Velha repousa na própria substância e só o tempo é visto nas ruas. Era madrugada de sexta-feira, e alguns points do bairro fervilhavam: rock, MPB, reggae. Após a fama do quadro (óleo sobre tela), alguns afirmaram ter visto a senhora retratada, mas as informações foram tão desencontradas que pareciam invenções. O único ponto em comum era a estranha roupa, de séculos atrás, as formas rendadas e coloridas captadas com precisão pelos pincéis. Os lugares e horários eram contraditórios – alguns descrevem a senhora admirando a igreja do Carmo no mesmo minuto em que foi vista perto do bar do Rubão; e mais: para uns, aparentava mais de cem anos e, para outros, era uma jovem de vinte vestida para algum espetáculo.

A tela em questão não é um mosaico, mas híbrida, misturando lugares diferentes da Cidade Velha, numa paisagem ao mesmo tempo nova, harmônica, e, para quem conhecia as figuras ali misturadas, também surpreendente e “incomodativa”. Os estilos igualmente se misturavam – os entreespaços de Dina Oliveira, a cor-textura de Jorge Eiró, o assombro angulado de Paulo Ponte Souza, a impiedade de PP Conduru. Como o autor da obra não se revelava, mas era certamente conhecido, dado o alto domínio do métier, uma enquete na televisão evidenciou o nome de Emmanuel Nassar. Procurado, Emmanuel deu uma sonorosa gargalhada e negou veementemente, apontando “defeitos” no quadro, “meio careta”.

A cidade não falava noutra coisa, a tela foi parar na internet e virou matéria nacional no “Jornal Hoje”. E, como cada um vê o que quer, confirmavam-se todas as contraditórias versões: a aparência primeira da retratada era de senhora, mas logo se argumentava que as mãos eram jovens, ou que as pernas eram de anciã, e que os cabelos não eram peruca, mas de fato brancos e lisos, como de uma índia albina. Também se disse que a personagem da tela nunca existiu, e tudo não passava de uma brincadeira articulada e disseminada por três ou quatro pessoas. Como vemos o que queremos, algumas circunstâncias, por demais “organizadas”, pareciam tudo confirmar: olhando bem, perscrutando, revelando detalhes, muitos concluíram que os lugares onde a pessoa fora vista eram os mesmos que apareciam (de forma explícita ou “disfarçada”) na tela: o conjunto que tem ao centro o arcebispado e o Museu de Arte Sacra (onde a retratada fora vista por um pescador de Igarapé-Miri); a rua Siqueira Mendes, chegando ao Carmo (onde dois jovens viram-na admirando as casas e a igreja - mas se descobriu que os rapazes haviam tomado ácido e a história ficou desacreditada); o Forte do Castelo (ali o segurança viu-a já a sair, e ia tão reflexiva que ele nada indagou da presença fora de hora: na tela, o Forte foi representado em verde, não que fosse tomado pelo mato, mas como se os canhões fossem clorofilados); a rua Gurupá, perto do Boteco do Rubão (onde um casal gay de músicos-estudantes foi o único a notar a presença inusitada); o Ver-o-Peso (onde uma feirante viu-a lagrimando, e ainda quis ajudar, mas a senhora abriu um sorriso e se dirigiu à beira do rio); e a beira do Guajará (onde ela prostrou-se no chão e chorou, sendo assim representada pelo anônimo pintor).

Passados quase 100 anos, resta pouca esperança de solver o mistério, confirmando-se apenas a data da feitura da tela, ou de sua conclusão (“23 junho 2008”) e o título assinado embaixo pelo próprio autor: “A Mãe da Cidade Velha”.