segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


49 - Famosas sem calcinhas

Há quem creia que já são efeitos do fim do mundo, cada vez mais urgente; de qualquer forma, dá o que falar essa moda de as famosas irem sem calcinhas às festas.

Elas saem na maior de dentro das limusines, e, “distraídas”, são flagradas mais nuas que quando vieram ao mundo e em detalhes às vezes constrangedores. Minutos depois, as fotos estão na internet. Há disponível uma seqüência que deve fazer o inferno da cantora Britney Spears: não porque aparece em pêlo, e sim por detalhes deveras sutis que devem ter traumatizado alguns fãs adolescentes.

O mercado de lingeries caiu dois pontos na bolsa quando Paris Hilton parou de usar as calcinhas que mostrava a torto e a direito. Pra você ver: o sobrenome Hilton é sinônimo de riqueza, luxo, tradição. A herdeira da cadeia de hotéis não podia ter outro nome: Paris. E não podíamos ter sorte melhor se, para Paris Hilton, mostrar a perseguida é o de somenos: nossa seriema de vison tem vídeo na internet em que faz de tudo com o namorado.

No Brasil, Juliana Paes revelou detalhes que até hoje atormentam os crédulos - em visadas festas de famosos.

Há uma seita de hereges que faz vodu pela internet para que, ao menos por alguns minutos, a Sandy se comporte em público como a Preta Gil.

(Eu prefiro esperar o resguardo da Carolina Dieckman.)

Não vão muitas décadas, artista era tão marginalizado que “atriz era tudo puta”, rememora Dercy Gonçalves; hoje, quase todas as estrelas da novela das oito posaram nuas; as jovens atrizes encenam ensaios sensuais em sites chiques, como Paparazzo; sexo na tv é só esperar cinco minutos. Para a maioria dos telespectadores, mostrar por aí o desenho geométrico da depilação não vai bem em moça de família. Mas as artistas estão a salvo, artistas são imaculadas como antes eram manchadas, gente como a gente, cheia de telhado de vidro, e você vai atirar a primeira pedra?

As mulheres definitivamente nos puseram na bolsa: posar para a G Magazine acabaria com a carreira de Denzel Washington, mas Daniela Cicarelli cresceu no conceito até dos ET’s após o vídeo em que transa na praia. A própria Dercy ainda saboreia vingança consagradora: mostra os peitos a torto e a direito desde os 90 anos. (Muito pracinha vai para o beleléu.) Valei-nos, São Marquês de Sade.

O diabo é que não dá pra prever onde essas maravilhas vão dar. Lembro de um comercial de Coca-Cola em que a adolescente – 13, 14 anos? – coleciona uma lata para cada vez em que “ficou” com alguém: havia centenas de latinhas no quarto. Com tanto estímulo, a questão sexual nas escolas é assunto para a saúde pública (sem falar na gravidez na pré-adolescência). Há casos de crianças de seis anos que produziram leite. Quando tinha meses de nascida, minha filha via tanto beijo na tv que sua brincadeira predileta era beijar na boca um boneco esquisitíssimo chamado Michel (hoje ela tem um ano e meio e trocou o Michel por um sapo duas vezes mais estranho).

Nossas estrelas se libertarem das calcinhas, no verão tropical, contra o calor dos países baixos, que maravilha, considero uma alta conquista do humano, afinal não pode ser pecado o gesto mais “natural da natureza”: aquele que garante a reprodução da espécie. Mas há que se ter responsabilidade, porque, de acordo com o ângulo, isso pode ser vulgar de dar dor e os filhos alheios não têm por que compartilhar exemplos tão cabeludos. (Lembro do comercial de um filme da Xuxa, no qual uma criança elogiava a “obra” e convidava a turma para assistir porque aparecia, “só de sunguinha”, o Xandy, marido da Carla Perez.)

Repensando bem, depois dessa do Xandy, começo a crer: evém o Juízo Final.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


48 - Bares e aparelhagens

Com paixão – não interessa qual – é inútil discutir. O apaixonado até acha que pensa, que toma decisões, mas apenas age, obedece, obcecado pelo objeto de loucura. Depois da morenês índia, da culinária e do futebol, o que mais endoida o paraense é a música.

Imagine um garoto de doze anos que descobre a vocação: lidar com sons, animar festas, fazer dançar. Observe-o numa rotina em que ouve música pelo menos 16 horas por dia – tudo é com música - comer, estudar, ir ao banheiro. Qualquer grana que role, discos, discos, discos e equipamentos. Some este garoto com milhares de outros. E, décadas depois, terá algumas das maiores massas de som do planeta, as aparelhagens do tipo treme-terra, tupinambamente paraenses, arrasas-quarteirão da Amazônia – com a poluição sonora correspondente.

Todo povo tem no mínimo um Deus, uma língua, um álcool; de cana, de arroz, de malte, de cevada com lúpulo (como resistir a “lúpulo”?); o álcool é a droga da humanidade, aceita socialmente, pessoas sérias bicando um uisquinho, até o presidente Lula bebia em público – identificando-se com o povo, fazendo uma média, mas o marketing virou contra o marqueteiro Duda Mendonça. O Brasil é emocionalmente uma bagunça - há cenas de sexo à tarde na tv; no horário de verão, os programas são passados, por exemplo, em Belém uma hora antes que no Rio de Janeiro; beber na frente dos filhos é hábito da família nacional.

As religiões e o “humanismo” passaram milhares de anos a nos ajudar a controlar o instinto sexual; e a publicidade – o sexo como mote e a liberação feminina com a naturaleza – detonou tudo em menos de vinte anos. Hoje é sexo e sexo, as crianças junto, sem proteção, sem diálogo, por isso adolescem sem a menor maturidade emocional. O sistema criou situações degradantes, humilhações, monstros como o da violência, e não consegue controlá-los, e em vez de resolver pela causa, rende-se ao Godzila do processo que se perpetua deglutido os irmãos.

Salvam o cidadão as manifestações do prazer - carnaval, boi-bumbá, forró; coisas do povo para o povo, que às vezes dependem do poder constituído, e de repente o poder não apóia mais samba no carnaval; e depois de criar o Alien do álcool (a conta publicitária das cervejarias rivaliza com a do governo federal), depois de nos seduzir com nosso próprio destilado (de cana) e, sobretudo, depois que nos acostumamos com essa dragagem, digo, com esse dragão, depois que nos envolvemos, que virou estilo de vida, eis que o poder decreta que não se pode mais, depois da meia-noite, ir ao bar da esquina com nosso monstrinho de coleira.

Na verdade, muitos podem sair, sim, de casa, e beber até de manhã, desde que em locais específicos, que atendam a uma série de exigências. A verificar-se quem os freqüenta, se constatará o óbvio – que os de maior poder aquisitivo preservarão intacto o lazer, enquanto os mortais serão atingidos na rotina: porque o poder público não encontrou outra forma de enfrentar um problema social.

De início, discutia-se apenas como reduzir (com urgência) os índices de barulho na cidade (a mais barulhenta, por cultura, do Brasil); em seguida, concluiu-se que fechar os bares reduziria também os índices de violência; e não se teve dúvida. (Em que veio dar a paixão de nosso menino apaixonado por sons, e logo agora que a música do Pará nunca fez tanto sucesso, nunca vendeu tanto, pois justo hoje decidiram silenciar a cidade: e não se pode celebrar, de ouvido, tal feito num bar, onde a maioria dos músicos se formou.) É certo que Belém já investiu (e precisa investir) muito em turismo para abrir mão de uma “noite” acalorada; mas tô preocupado mesmo é com a temperatura de nossas íntimas baixadas.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


47 - Mágoa e perdão

Por que magoamos a quem nos ama e a quem amamos? Esta pergunta deixa nuinha, sem sombra de dúvida, toda a maldade da raça.

Num mundo duro, egoísta, competitivo, sucede o milagre do amor, da amizade, da camaradagem; e a gente, por egoísmo, por inveja, por mesquinharia, fere a amizade com o punhal da língua (ou, muito pior, dos atos, traições). De hora pra hora, num impulso, num rompante, num romper-se de dique, falamos as maiores indelicadezas a quem mais nos ama e amamos.

Já tive o prazer de afirmar que a constitutividade psíquica dos humanos é semelhante a uma câmara de borracha: enche, enche, enche e precisa explodir; remenda-se, enche, enche, e de novo explode e remenda-se. Na prática, acumulamos os dissabores do dia-a-dia, uma frustração aqui, outra acolá, desgastes no trabalho, na família. Os dissabores inflam a câmara de borracha de nossa psique; em certo momento – se estivermos mal, ou bem demais, ou sob pressão, ou magoados –, a borracha rasga-se por meio da língua-punhal, aquela que fere de uma vez a quem amamos, e a nós, continua a nos ferir pelo tempo afora.

O leitor certamente já passou pelo drama: magoar alguém que ama ou ser magoado de forma inesperada. Foi uma explosão, foi a pressão, foi a primeira válvula de escape que surgiu: e ferimos; e nos feriram. Tudo muito humano, auto-explicável, manifestações da maldade carnívora da espécie. Ou não? (Talvez o mais triste seja descobrir que nós é que somos tão humanos.)

Nesse mundo duro, egoísta, temos obrigação de cuidar do amor - que nos ampara, nos fortalece, sem ser a nossa mãe. Cuidar do amor é até um sentido de auto-proteção – se aí quem fere sai mais ferido. Nada deveria merecer maior atenção, dedicação, agradecimento. O amor não é uma ilusão, em que é preciso “acreditar”: ele é o sorriso (que ilumina), o abraço (que impulsiona), a água e o sol (que frutificam). O amor é simplesmente o bem, e não há tratar o bem a punhaladas.

Hoje, que a saudade me passou a manhã cutucando a consciência, achei por bem pedir logo perdão, de coração, às amizades que magoei e, humildemente, liberar os que me magoaram de sentirem ainda algum remorso.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


46 - Pedro

A pedra rebentou: Pedro. Desde sempre, menino da pedra, desde a época das grandes explosões, dos sóis que queimavam como enxames de relâmpagos, das lavas se solidificando feito mares vermelhos, em órbita. Bem-vindo, Pedro, neném de pedra, desde o tempo em que as estrelas dormiam nas campinas.


Bem-vindo, menininho de boné, menininho de dois dias, ninho de sonhos, bem-vindo ao Século XXI, e pode abrir os olhos, é seguro, não temas épocas antigas tuas, quando as mães eram nômades e a vida atravessava pela morte. Abre os olhos, é seguro, vamos por uma travessia pela vida. Pedro, pedra de Pedro, desde a época das primeiras águas inundando os vales, sem pássaros além da alga que migrava entre-montanhas. Pedro, Pedro de tempo, granito de luz, faíscas de sangue bom.

Pedro pedra, tábua de projeção, a quem logo chamei Gladiador. (Quando a pediatra entrou no quarto, avisou: “Agasalhado, ele nunca vai comer; menino é preguiçoso, e tem que tirar a roupa, fazer ele se incomodar, se espertar, para que mame.” Gladiadores recém-nascidos não acordam nem para comer.) Pedro, meu minúsculo grande filho, traquinas, saliente, logo notei nos raros segundos em que acordou, nu e sacudido por três mulheres, com sono a tirar leite do peito. Pedra levada, menino lascado, Pedro esperto no concreto, nas cabras montesas. Pedra, quando abrires os olhos, menininhoinho, eu quero estar presente para chorar.

O que se oferece à pedra, senão palavras? Ao Pedro desde que os peixes viraram pássaros, e os pássaros viraram beija-flores, que conselho, que sabedoria dizer à pedra, senão esta das palavras, do sopro, do deslumbramento diante do primeiro vento? Pedro, eu te ofereço palavras, jogos de ser, palavras que movem as montanhas sobre os reinos, palavras vivas como o calcário, o mar.

“As Aventuras de Tom Sawer”, “As Aventuras de Pedrinho”, os séculos rodam rapidinho e tudo o que vejo pela frente pisca: Pedro eletrônico, Pedro de Órion, parede de caverna do Cavaleiro Biônico, turbina neolítica, cyborg fundido em magma, Pedro em tudo, eu te saúdo, advento de era, tempo que acorda como uma pirâmide, eu te saúdo e tua mãe te adora (tuas ladinas irmãs te festejam, por isso fica esperto: para aprender). Pedro de fantasia, Pedro dicionário de palavras por criar, jóia da única imaginação mais lenta que os filmes de Tarkoviski, bem-vindo à brevidade das palavras, bem-vindo leeento, Pedro de brisa, pedra à flor do mar, beija-flor enorme pousado nas mãos da mãe, no banho.

Eu te ofereço frases, garças de graças, frases da vida para a eternidade, curtas como as sílabas do sopro, como a duração de veres pela primeira vez tudo o que eu julgava ter visto. Vida, vista sobre a natureza do corpo, paixão que desmancha a carne e funde voraz outra fome, Pedro, eu que recebi e te transmiti a pedra entrego também a brevidade da vida, nessas palavras que garimpei não do cotidiano, mas da meia-idade em corrosão, palavras que se ficaram de lado e irrompem erodidas: eu te transmito o presente (pedra só lembra do futuro e da infância) e um consolo: a palavra traz a consciência da brevidade, mas ensina a ver na velocidade da luz.

Vida sentida, poema que se sofre de tão maravilhoso, que se pena deslumbrante como um peregrino, que se conhece de tão doce: Pedro de tempo, em ti fundo essa primeira palavra, “Vida”, sem tempo, sem norte, vida apenas, peripécias de teus primeiros saltos na minha imaginação.

Pedro em que sou pedra e, a largas passadas, estremeço as palavras que me atraem às montanhas.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

DARA (JABUTICABINHA) E PEDRO BY WALDA MARQUES


LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"

45 - Jabuticabinha

Desde que ela nasceu, quatro meses atrás, giramos-lhe em volta como num planetário, desmedidas gravitações em torno de minúsculo sol. “Solzinho que brilha de madrugada!”, boceja a mãe, e já alerto o leitor de que esta é, mesmo, a saideira crônica sobre Dara.

“A Vida do Bebê”, manual pediátrico, parece um tijolo de seis furos – para servir de travesseiro. Lemos que os nenês, aos três meses, têm pesadelos e acordam assustados. Pesadelos? Diz a mim, Dara Damaso de Oliveira, de onde virá essa tua necessidade de se purgar, senão da manipulação, de caprichos ultra-minúsculos, instruída por maravilhosas avós? Todo pai de família sabe – duas avós ao mesmo tempo sobre a mesma criança é caso de Conselho Tutelar. Sempre digo que não sou do interior, e sim do mato, e não lembro de ter tido lá pesadelo aos três meses.

Fofosa, sonosa, manipulosa, traquinosa, chorosa, cocosa, musicosa, banhosa, friosa, shortosa, meiosa, pulseirosa, brincosa, jaboticabosa. Na verdade, o primeiro adjetivo depois do nascimento foi indiosa, porque os olhos inchados e o cabelo muito preto confirmavam antepassados parauaras; o primeiro improviso que lhe pespeguei foi “lindiosa”, mistura de linda com indiosa e geniosa, exemplar força da natura. Logo os traços índios tornaram-se morenos, e os apelidos e adjetivos se foram renovando. Lembro de “Abelhinha”, pela redondez da face e dos olhos e pela vivacidade; de “Sem-cerimônia”, por defecar cheiros terríveis, e todas as mulheres da casa festejarem, e a pobre da bebê rir escancaradamente, aprendendo o que é o apogeu; e, para encurtar, teve “Magali”, a personagem comilona dos quadrinhos, pelos olhos redondos, pestanas marcantes e por um cacheadinho no cabelo do lado esquerdo de quem olha. Nenhum apelido foi tão bem-sucedido quanto Jabuticabinha.

No início, os olhos de jabuticaba sorriam como a boca sem dentes, junto com as mãos e as pernas; abelhinha lindiosa carequinhosa manipulosa confirmando a existência de todas as pessoas; e ganhando forma em nossas vidas: Jabucabinha logo variou-se em Jabuticabosa, Jabuticabinhazinha, Jabuti’cabinha’zinha, Jabuticabojososa, e os termos viraram diálogos (“Ela tá jabuticabosa?”, “Claro, e rindo!”) com verbos exclusivos, às três da manhã (“Jabuticabou?”, “Total!”), e aí tento eu acordar, sentar na cama apoiado à parede, três travesseiros às costas.

A figurinha foi crescendo, e haja independência, página 203 de ”A Vida do Bebê”, frutinhas, sopinhas. A mãe já leu até à 302, como se antecipasse os capítulos de uma novela. As mães (avó é mãe em dose dupla, veja você) estão loucas para dar papinhas, sopinhas, misturebazinhas, caldinhos de feijão rajado. O carapanã picou a testa da princesa - pediatra! O doutor Haroldo Menezes olha a bebê e fica atordoado: “O que vocês estão fazendo aqui?”; elas perguntam se pode isso, se pode aquilo, e o médico, enérgico, “não, não, não!”. Ao sair do consultório, procedem como se ele dissera “sim, sim, sim!”.

As avós já chamam a abelhilosa de “Zabuticabózisa”, e ao telefone a mãe pergunta trinta vezes por dia: “E a Jabuticabinha? Oôoo, minha linda! que fofa! E comeu?”. Num dia não muito distante, o olhinho jabuticaboso passou a ver as coisas, os movimentos, e a ser dominado pela própria visão: a ser jabuticabado. Para tudo a pirralha virava os olhos, até para trás, giro de 360 graus, crente que sustentava mesmo a cabeça (“Ela zá lealiza opelações complecxas!”), e por falar em sustentar a cabeça careca, virou “Lagartinha humana”, a única da natureza, e assim a Jabuticabinha jabuticabou-se, e a nós, e agora ri também com mãos e gargarejos e lágrimas de crocodilo, e todos nos quedamos à adoração, postados em silêncio, risonhos e embasbacados, jabuticabados.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


44 - Lagarta, crisálida, borboleta e futebol

Muitos mitos soprados pela arte realizam esta necessidade humana: mudar. Vejam-se três histórias que viraram desenhos animados: em “Pinóquio", um boneco de madeira torna-se “menino de verdade”; “A Pequena Sereia” transforma-se em alegre debutante e casa-se de véu e grinalda; o belo rapaz amaldiçoado vira a Fera, que a seguir volta a ser o belo, que ao final casa com a Bela: “A Bela e a Fera”, perspectiva e destinação feminina. Sendo também o futebol chave psíquica e da região da arte, não custa vê-lo logo como mito. A questão é: mito de quê? O que o futebol revela de nós, das fundas camadas de nossa natureza, e de como manifestamos o desconhecido?

Em qualquer selva, a saga da borboleta cumpre um romance trágico: primeiro nasce a lagarta, que resolveu de forma simples o problema da Morte: em vez de morrer, vira crisálida. Este pequeno casulo também se transforma noutro ser: e nasce a borboleta, um dos entes mais agradáveis do ar, asas de íris filtrando diafanamente o entardecer - e de repente esta bela desencantada/desabrochada vira Julieta: tem um momento de esplendor e morre: a borboleta vive no máximo quinze dias, mesmo as mariposas.

Ao menos se humilhou a Morte com um drible: a lagarta, rastejante, parece que vai, mas volta, agora com asas. Igualmente: sair da madeira para a forma, e da forma para a realidade, até formar-se a consciência e o nome de um menino: Pinóquio; e sair da condição de sereiazinha medrosa e impulsiva para os braços da independência e da lua-de-mel (a Pequena Sereia é a adolescente: já não é criança – escamas de peixe na água da mãe - e ainda não é mulher: mutação psíquico-física, tilápia virando ruiva estabanada): mudar, fugir, enfrentar, conseguir: a mudança traz dor, mas revela, descobre: por isso devemos cumprir a clássica sina do herói: uma longa travessia, dolorosa até a morte, mas valente, triunfante, abnegada como um amante de época.

Mudar a Seleção Brasileira nessa Copa da Alemanha é um anseio do nosso inconsciente coletivo.

A) Mudar, por exemplo, Ronaldo, um pouco lento, por Robinho, leve, e driblador. B) O 1 a 0 sobre a Croácia deixou claro que quatro atacantes pode ser suicídio (ainda que um “quadrado mágico”). C) Você não acha que Cicinho dinamiza mais o jogo que Cafu?

Assim se nos revela o mito do futebol: não é um mito, é uma mutação entre fantasia e realidade: é, ao mesmo tempo, a ansiedade, o sofrimento, a alegria, a explosão, os segundos de êxtase de qualquer vida; e são 90 minutos de pura fantasia (a mais real que há no mundo moderno). O futebol é o mito de si mesmo – de tão absurdo, lendário, inacreditável, catártico; e por ser a realidade: mata-se e se morre por ele. A bola, mais do que substituir o real, gira contra o acaso noutro real. Futebol é o fantástico perde-e-ganha cotidiano: condicionado por expectativas, esperas, mas que - “como num sonho” – prepara sempre épicas decisões.

Com medo de sermos infelizes para sempre, pondera-se: A) Se o Ronaldo já fez o que fez com a bola, e com os zagueiros, e com os goleiros, e já se superou fisicamente num caso dramático, como não lhe dar confiança (“nos três primeiros jogos”)? B) E se, num mata-mata, o Brasil necessitasse de um gol, não poria em campo os quatro melhores atacantes do mundo, o tal “quadrado mágico”? C) Com Cicinho, o time talvez ganhe em movimentação, porém corre o risco de ser surpreendido; com Cafu, ganhamos a experiência de três finais seguidas de Copas.

Mudar dói, mas não arriscar pode ser fatal.