segunda-feira, 12 de abril de 2010

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


58 - Açaizeiros

A Amazônia é a maior mãe da natureza e penso, agradavelmente, que nós, paraenses, somos seus filhos preferidos. O mesmo devem sentir os açaizeiros.


Estamos num quintal em Mosqueiro, serão 18 horas; noto que uma touceira de açaizeiros disputa espaço com uma mangueira. A mangueira, enraizada, projeta e espalha os galhos, e sombreia várias pequenas palmeiras na disputa pelo sol. Acima da copa da mangueira, porém, balança um açaizeiro que cresceu mais do que os irmãos, e atravessou os galhos e a fronde. As folhas deste açaizeiro-primôgenito, mais verdes que as dos irmãos, atestam a inteligência de sobrevivência da touceira, que concentrou numa árvore o melhor de suas raízes, fincadas em feixes envolvendo raízes de outras espécies. Do jeito que, na vida, disputamos espaços e outros objetivos, e quanto maior o triunfo, maior o verdor.

Veja, no quintal ao lado (em Mosqueiro, os terrenos são quintas) exibem-se outras touceiras de açaizeiros. Duas, a uns quinze metros uma da outra, parecem rivais. Dir-se-ia que adotaram estilos diferentes para competir em altura: enquanto a maior árvore da touceira à direita tem igualmente o tronco mais grosso, consistente sobre as irmãs, a maior da touceira à esquerda é, digamos assim, um palito. As folhas das altas rivais têm quase a mesma tonalidade/intensidade (as da que tem o caule mais consistente são mais intensas, puxando ao musgo). Ambas as palmeiras estão entre as mais altas entre todos os quintais e, como se enxerga, o vento está forte, quase friorento. E nossas duas rivais balançam, não, bailam, em gestual.

O açaizeiro é um dos traços mais lindos da natureza. Mão de artista o desenhou num único movimento (tenho a impressão impossível de que foi de cima pra baixo) com lápis de ponta fina. Aquelas raízes em feixe, cada vez mais fincadas, erguendo-se em contraponto, mais alto, mais alto, e tanto mais alto o açaizeiro, mais parece feito de uma só ondulação com o lápis.

No ar, as raízes viram folhas e cachos, e à medida que estes caem, o tronco alteia-se em nódulos de fibra, que se projetam em novos nós, sempre para o alto, como se o tempo, quanto mais tentasse abatê-lo, mais lhe prolongasse a elegância.

Muitas árvores se protegem do vento com grandes raízes; enfrentam-no, fincadas como braçadas de clorofila. O açaizeiro relaciona-se com o vento sendo esguio. O vento não se choca contra ele, e sim parece atravessá-lo, ou melhor, quase não o toca. E assim desenvolveram ambos tal bailado: o esguio das palmeiras é vergado a partir das pequenas copas (como se o vento as puxasse pela cabeleira) para um lado e outro, e às vezes a linha ondulada do caule verga-se tanto que parece obedecer a forças opostas, apontando para lados diferentes, e é evidente o prazer comum que sentem, árvore e vento, de tal forma que o friozinho que nos acalenta se prolonga por horas: mais do que química, rola uma física nessa noite de sábado, e é como se hoje estivesse tão perfeito que árvore e vento ultrapassassem os próprios limites, e agora a cintura da palmeira está a ponto de partir-se, e lhe podemos até adivinhar-se na ponta das sapatilhas, digo, das raízes e outras terminações nervosas.

O paraense é bom de dança, sabemos, de tal forma que, em qualquer periferia ou interior, os casais girando parecem pré-selecionados num concurso. Mas tirar o vento para dançar, ou aceitar-lhe o convite, de forma que o estar das folhas seja como o estar da dança, e não o contrário, é um capricho e tanto da Amazônia. Pensar que tal palmeira ainda dá o açaí...

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


57 - Cenas paraenses

A pata grotesca

Isopor em aeroporto é sinal de paraense. Se a pessoa chega de Santarém, não há dúvida: traz comida, pronta com o tempero da avó, ou por fazer, em forma de peixe ou pato. Ou de tartaruga.

Vôo de Santarém, e os passageiros gargalhavam ao recolher a bagagem na esteira rolante.
Até que só restou um grande isopor, girando, abandonado pelo dono com medo do Ibama.
Motivo: uma tartaruga, a despeito de cuidadosamente amarrada, libertara a potente pata dianteira direita e com ela furara o isopor.
A PF vigiando, a esteira rolando e aquela pata pra fora, a acenar.


Só excomungando

Aquele jornalista chegou ao apartamento de manhã, bêbado e sedento. Não tinha água. Nem na torneira. Dormiu atormentado, e acordou à beira da desidratação. Sem uma gota dágua.

Numa decisão de vida ou morte, resolveu lamber a parede do congelador da geladeira vazia. E a língua grudou.

Foi pior que dormir na sarjeta: a língua grudada, o telefone longe, o interfone perto, mas fora do alcance, a língua queimando e o risco de, ao se mexer muito, perder a ponta do ressecado músculo.

Alcançou, por meio de contorções indescritíveis, uma enorme chave de fenda, com a qual agrediu o congelador, salvando a língua, mas perfurando o plástico: o ressaibo ardido e pressuroso do gás a vazar.


No interior

O cumprimento é sagrado nas veredas interioranas. Por mais que não se conheça a pessoa, diz-se 'Bom dia!', 'Boa tarde!', ou simplesmente 'Ooooi!'. Este 'Ooooi!' é destinado, inclusive, àqueles a quem não se enxerga. Se, por exemplo, ouvimos vozes ou o trotar de um cavalo, longe, dizemos 'Ooooi!' e recebemos de volta o cumprimento. Um gesto automático, cultural.

Cultural também (sobretudo seis décadas atrás) era a caça para a alimentação da família. E os ribeirinhos garantem: sempre foi quase impossível abater um maguari.

Seu Renato tentava há anos levar um maguari para o jantar, mas sempre falhava: o pássaro, arisco e esperto, nunca se deixara surpreender.

Num belo entardecer às imediações de Alter-do-Chão, seu Renato vinha com dois filhos, quando enxergou à distância, na copa de uma árvore, uma turma de maguaris. Aproximou-se sorrateiramente com um dos filhos, Zezinho. Parecia um milagre: estavam já sob a árvore, e nenhuma ave voara. Seu Renato estremeceu de alegria quando firmou a mira. No segundo em que ia puxar o gatilho, ouviu-se baixinho, quilômetros distante, o cumprimento: “ooooi!”. E Zezinho, automático: “OOOOOOII!!”, espantando a passarada.


Poraquê

Na palafita, o jovem pulou da cozinha para a água enlameada do quintal, na tentativa de aparar um papagaio que chinava. Na água, pegou um cano de ferro para enrolar na rabiola - e foi parar no hospital.

Levou uma descarga de centenas de voltts: de um peixe elétrico que morava no cano de ferro, embaixo da palafita: à espera de se restabelecer o contato das águas do quintal com as do rio Tucunduba, ali no Guamá.


O veneno da bacurinha

Um jornalista boêmio senta-se ao lado de outro, no Cosanostra. E espanta-se.

- Caramba! Vieste da guerra, da Transamazônica, de Woodstock? Maluco, tu tá pior que o bagaço da laranja!

O outro permanece calado, baixa a cabeça diante do copo de uísque e retorna à divina comédia de pecados.

Minutos depois, intrigado, o amigo indaga:

- Afinal, o que diabos te aconteceu?

O moribundo busca no fundo do ser todas as forças, puxa o ar para fazer chegar à boca a débil fala, e responde como se lhe fora a última frase:

- Bu-buceta!

Foi instantaneamente deixado em paz.

terça-feira, 2 de março de 2010

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


56 - Desnaturadas e imperdoáveis considerações de um bebê

“Cara madrinha Cristina,

Desculpe o português pretensioso, mas, se eu já não nascesse escrevendo, meu pai morreria de desgosto. Falar nisso, passo a dever uma crônica para minha outra madrinha, Regina, pois que tenho duas: uma católica e afetiva (Regina) e outra apenas afetiva, por arte e manha dessa nuvem de calças, dessa temeridade abismal, meu próprio pai, Edson Coelho de Oliveira. Como ainda não fui batizado e nem conheci a Regina, é contigo, Cristina, que divido graves preocupações.

Nos meus primeiros dias de vida, eu achava que só o meu pai era louco. Hoje, prestes a completar quatro meses, constato que a loucura não é a exceção. Teu amigo Edson continua a ser um campeão, claro, e não vai aqui simples vingança por me obrigar a folhear o “Ulisses” do Joyce. Basta dizer que, anteontem, o desmiolado precisou cuidar de mim de madrugada e, em vez de acalentar, despachou-me para o carrinho e ainda tentou engambelar lendo versos de lavra própria. Que cristão agüentaria? Abri mais o berreiro, e o desnaturado então me pegou no colo, e teve a brilhante idéia de liberar logo a mamadeira de leite que eu só veria duas horas depois. O que se seguiria, Cristina, vale por cerca de quatro horas de agonia: inchado de leite, aceitei ficar no conforto do carrinho, e o azuretado do Edson voltou ao texto que escrevia, ou, melhor, que não conseguia escrever: aproximava-se do computador, lia em silêncio, lia em voz alta, mudava a entonação da voz, e voltava sempre aos mesmos versos, e voltava e voltava, e empacava no mesmo ponto, às vezes anotava outras palavras fora do texto do poema, e retornava ao trecho encasquetado, e passou a andar pelo quarto, repetindo em voz alta as mesmas palavras, e eu, que achava que tinha visto tudo, fiquei bem assustado, ele fundira de vez a cuca e parecia uma secretária eletrônica avariada, a repetir as mesmas palavras empacando no mesmo lugar. Claro, perdi o sono - e se acontecesse algo ainda mais trágico? Muuuuuito tempo depois, o que é o meu pai deu um grito inopinado, aproximou-se do computador e escreveu, vermelho, uma única palavra. Leu todo o trecho, berrou “Eu sou um gênio!” e eu quase chamo o 192: quatro horas pra achar uma palavra e se achar a cereja da cocada preta? Coitado. Como vês, o quadro é apavorante.

Bem, meu pai não ter salvação é, de qualquer forma, indiferente para a humanidade, mas a humanidade não ter a menor chance preocupa: estou no auge dos meus três meses e ainda sonho em fazer algo diferente. Acontece que vou acabar é dando razão ao Edson: o mundo é todo biruta. Tudo o que nos cerca está imiscuído de birutice. A loucura (ou seria a mentira?), entranhada nas estruturas, nos hábitos, nas convenções. É-se levado a crer em fantasias, em símbolos, em ícones para além do plausível. A fantasia é um dos elementos mais determinantes da realidade, da “verdade”. A vida é uma imperfeita invenção.

Pra não achar que é implicância com o mundo (imagem e semelhança do meu pai) olhe bem para as pessoas, o que fazem do tempo, como consomem e se consomem, as ansiedades, as pressões, olhe direitinho, e veja quanto tempo e trabalho são gastos para que os adultos façam certas coisas, todo dia, todo dia, como se as horas se repetissem tal na secretária eletrônica modelo Edson Coelho. Todos doidos, inexplicáveis, robóticos, mecânicos desde o último fio de cabelo do universo que nos ignora.


Cristina, confesso: detecto em mim gestos e arroubos só presenciados em meu pai, e temo ser estigmatizado como boi-bumbá da lua. Pega urgente um avião!

Pedro Damaso de Oliveira

P.S. cuidado com este e-mail: meu pai tá tão surtado que seria capaz de publicar como crônica.”

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


55 - Jaguatirica não é onça

Quando um felino ronca na mata, o tremor no chão nos contagia da aproximação da morte: a boca de cada bicho recebe o amargor que clareia os olhos e tudo se enxerga num alvoroço de lampejos – todos os troncos, buracos, gotas, galhos, grotas.

Onça, pantera, puma, suçuarana: a portentosa atravessa, às vezes, os limites do mato para o capinzal, e certa manhã uma enxergou-me de longe, sem se intimidar. Olhei para a cerca de arame farpado que me separava do estábulo e concluí que seria desmembrado em três minutos. Comecei a descer de costas a ladeira em 90 graus, de olho na assassina que se aproximava estratégica. Se eu passasse pelo arame e chegasse ao estábulo, escaparia - sem uma perna, talvez, mas com vida. Só quem curtiu um perrengue desses sabe o quanto custa a humildade.

Uma onça é igual ao pêlo lustroso, às garras, à elasticidade das presas. Pantera, pela força, onça, pelo roçagar da perseguição, suçuarana, pela respiração compassada de cobra, puma, pelo grito que, em minha garganta, se esvaiu por sufocamento como se eu fora abocanhado no pescoço. Mas, graças aos deuses, cheguei a tempo ao estábulo.

E jaguatirica? Que é sobre este nome, leitor, a não-crônica de hoje.
Jaguatirica não me evoca a malhada em sangue, o estraçalhar indiferente da vida, e sim sutilezas de finas setas a tecer a destruição, não como osso ou marfim, mas como sons: um ataque feito de sons, o grito do jaguar a materializar-se em invisíveis pontas de osso, fenômeno produzido menos pelo urro em busca do estilhaçamento e mais por estas letras de marfim: jaguatirica, como se, por meio das palavras, a onça revivesse nas células as domésticas gatas engatadas pelas agulhas dos gonzos, lancinantemente extasiadas nos telhados. Jaguatirica, palavra de gato que se defende na rua com as unhas lacerantes do esganiçar, jaguatirica, nome mais do que presa, agudo mais do que sólido.
Acontece que, para além dos angorás, o nome jaguatirica me remete ao reino vegetal, não só por meio de metáforas espinhentas, mas fisicamente: o talhe do bambu, a lâmina de bambu, a folha-penacho, o gume flepado, bambu-zarabatana, vento estilhaçado, o grito do gato-jaguatirica tem mesmo íntimo parentesco biológico com o bambu: do mesmo jeito que, hoje, os humanos passam pelo estágio inicial das células-tronco, matéria-prima que se transforma em todas as células do corpo, houve tempo em que a própria vida ainda não era vegetal ou animal, mas uma matéria comum que tudo viraria, vida apenas, e durante a evolução das espécies, tenha a certeza, o bambu e as tigresas demoraram um tempão para se separar, siamesas.
Como acredito que o leitor ainda não pediu minha internação, é fácil também notar que a onça já foi pássaro, ou que uma capacidade não desenvolvida na onça virou asa num parente próximo (separados por uns quinhentos milhões de anos). Pois que a onça voa, aos pares de patas, são quatro asas em cadência que cria a ilusão de descompasso, e a onça parece por vezes ir de lado como uma canoa que avança enviesada pela força articulada de quatro remos: o vôo da onça é como duas águias a remar no céu do cerrado.
A onça, portanto, já foi peixe, não tão somente tubarão, que é por demais inquieto, mas da adorável família das ariranhas, gênero em franca mutação (ainda não decidiu se vai ser peixe ou uma espécie curiosa de tigre de casaca).
Jaguatirica, lontra de bambu, flauta de setas de marfim, voa sobre minha imaginação, plana como dois urubus as raízes com chocalhos, mas erra minha carcaça: o tremor que causas na terra nunca mais me enganará e nega as minhas palavras.
(Bendito arame farpado.)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


54 - Reaver todo o tempo

Uma das realizações humanas mais extraordinárias é a formulação (pela filosofia, pela arte e pela ciência) do, digamos assim, mito do eterno retorno. Imagine: tudo o que agora acontece se repetindo, rigorosamente igual, em determinado estágio do espaço, daqui a milhões de anos. O argentino Jorge Luis Borges, no conto “A escritura do Deus”, trata de um homem aprisionado, Tzinacan, cuja divinidade, Qaholom, no início do mundo teria previsto todos os males e ruínas e deixou uma forma de saná-los: uma frase, que pronunciada recriaria/restauraria tudo, sentença que conteria toda a obra do paralelismo entre o tempo e o espaço. Borges quase nos faz crer que tal frase existe, afinal um deus “só deve dizer uma palavra e nessa palavra a plenitude. Nenhuma voz por ele articulada pode ser inferior ao universo ou menos que a soma do tempo.” Ao final do conto, o prisioneiro descobre a sentença total: cifrada nas malhas dos tigres. Pronunciá-la seria tornar-se onipotente, tornar-se o próprio Deus, mas Tzinacan, mesmo senil e encarcerado, nobremente não a pronuncia: “Quem entreviu o universo, quem entreviu os ardentes desígnios do universo, não pode pensar num homem, em suas vulgares ditas ou desditas”. Imagine, leitor, pronunciar uma frase e poder absolutamente tudo...

Mais fantástico do que a formulação poética ou filosófica é ter a física prometido a concretização do retorno: não apenas nos livros, mas no real, o universo se repetiria de cabo a rabo, e, a meu ver, o único problema aí é que demoraria demais considerando-se ser uma repetição: os exatos bilhões de anos transcorridos até fechar o ciclo-reinício. Vou fazer uma pergunta humilde: e se este retorno estiver se dando agora, se a atual vida já foi vivida desde o começo dos tempos, se formos uma reprise como um reflexo no lago? A resposta mais agradável é a possibilidade de intervir no universo, de lhe acessar o passado e o futuro, pois que estes estão em algum lugar, preservados, e, portanto, é menos impossível descobri-los. Encontrar uma máquina, uma conta, uma fórmula, uma sentença, e instaurar a navegação pelo tempo, tornar real o mais recorrente sonho dos poetas. Honestamente, eu não hesitaria em dizer a palavra, a sentença, eu entraria na matemáquina, eu aproveitaria a fresta e atravessaria as eras a despeito de minhas vulgares ditas ou desditas. Aliás, se é pra sonhar, eu gostaria de escolher, selecionar - apenas alguns fatos e pessoas de passado e futuro, algumas sensações raras para depois lembrar.

O que você, leitor, escolheria para re’ver, re’viver?

Noutra extensa demonstração de humildade, enumerarei algumas coisas de que não abriria mão. Em agradecimento ao Borges, eu assistiria à imagem em que “Adão descobre a frescura da água” no Paraíso. Antes, porém, eu observaria um pouco da formação das espécies, e presenciaria o surgimento da fala e das primeiras palavras. (Tenho quase que certeza de que a primeira palavra foi “mãe” e o filho estava com fome ou em perigo). Pena que Helena e Tróia provavelmente foram inventadas, mas passaria um tempo conversando com Homero, se ele aturasse. Submeteria poetas como Dante e Rimbaud à minha maviosa presença, e aproveitaria todos os minutos entre as décadas de 1910 e 1930, quando estavam no auge Fernando Pessoa, Pound, Lorca, Eliot, Joyce e Maiacóvski. Também viveria de novo muito da minha vida (uns 3%) e daria um salto tremendo para o futuro, primeiro duzentos anos, depois dez mil, depois um milhão de anos. Disso tudo eu selecionaria, para depois lembrar em 2006, as sensações de felicidade de alguns bilhões de pessoas, o segundo mais intenso de cada vida, e os ficaria curtindo em série, encadeados, como se eu, e não Platão ou as conjecturas dos teósofos, fosse a memória do universo.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


53 - Os descarados

Esta crônica não trata do desonesto, do mal, do cínico, mas do descarado puro: cara-de-pau misturada a desfaçatez, temperadas com mentira e promessa e arrematadas por total sem-cerimônia. Eis o início da classificação do tipo, que cada leitor deve ampliar:

- Encosto – aquele conhecido descarado que chega para passar três dias e consegue ficar três semanas.

- Encosto com agravante – mora de favor e faz que não vê a dona da casa gastar, por causa dele, um litro de desinfetante todo dia no banheiro.

- Godzila e os mortos-vivos – após 70 milhões de anos, homens e dinos se reencontram por obra do descaramento: nos shows macabros de bandas exumadas, como o Kiss.

- Godzila e os vivos-mortos – Nos shows bizarros de bandas que morreram e não foram enterradas, como o Simply Red.

- Godzila executivo – Newton Cardoso, o Newtão, ex-governador de Minas que amealhou na política, às trombadas, quer dizer, na marra, bilhões de reais.
- Filho de mãe idosa separada – Representa o papel de garoto carente de 8 anos e a genitora, como todas, só falta passar talquinho no cinqüentão desbundado.

- Filho de mãe idosa separada com agravante – Além de saquear a bolsa da mãe; além de comida, roupa lavada e total silêncio até as cinco da tarde (para descansar das noitadas); além de ter, como as grávidas, desejos madrugadeiros (por novas tecnologias), o desalmado estragou o show de Roberto Carlos pela tv: ensaiou até meia-noite com a banda cover de punk-heavy-trash (a mãe teve uma estafa batendo na porta, mas ninguém ouviu, o quarto impermeabilizado com cubas de ovo).

- Filho-da-puta – George W. Bush.

- Funcionário público – Aquele parente, ou colega de bairro, ou de trabalho, que se porta como um rei e arrota importância, promete apoios, “faz questão” de ajudar a resolver problemas, mas virou o folclore da rapaziada: também conhecido como “descarado-guichê”.

- Gato de hotel – Seduz mulheres da classe média alta, se aplastra na mordomia e três anos depois desaparece, não sem antes limpar o apartamento e a conta bancária.

- Gato de hotel com agravante – Mantém, nessas circunstâncias desalmadas, três casamentos simultâneos.

- Gato de hotel com agravante do agravante – Grava um vídeo para chantagear a “esposa”, o vídeo cai na internet e o descarado fatura como ator pornô.

- Tesoureiro de campanha política – Este, como é peso-pesado, eu preferiria reenquadrar: na categoria de cinismo, não de descaramento.

- Tesoureiro de campanha política com agravante – Ir à tv três vezes ao dia negar o que já se comprovou. (Situação, aliás, que o enquadra em dupla categoria: é um descaradão, além de cínico.)

- Descaradinho – Aquele que, nas enormes filas de shows, bancos e órgãos públicos, fica por ali, tentando engatar um papo furado, com a evidente intenção de furar na sua frente.

- Descaradinho com agravante do agravante – O débil mental chantagista do namorado da sua filha mais nova, que agora até dorme na casa do “sogrão”: porque você o flagrou com outra no momento errado: você também estava com outra.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


52 - Medo das palavras

O palavrão é o patinho feio dos dicionários. A diferença entre o palavrão e o cisne da fábula é que o primeiro é quase sempre, de fato, feio de constranger e o Patinho Feio do Christian Andersen era, afinal, um cisne. Bem, o palavrão também não é nenhum patinho, está mais pra águia ou urubu, e vive longe de ser o personagem – ou linguajar – adequado para uma narrativa infantil. Como este começo, portanto, fracassou, tentemos outro.

A tv pode mostrar – sexo, sexo, sexo – mas não se pode falar sobre. As crianças de 0 a 6 anos – que formam ainda a personalidade e têm a memória melhor que a dos elefantes – podem assistir, depois das 18 horas, a vários triângulos sexuais encadeados na tv, mas não se fale disso na sala. Metade da grana gasta com publicidade é para construir apelos sensuais, e nem precisava tanto. O que mais a censura represou, por séculos, nas palavras (o sexo) a emancipação feminina botou nos eixos em duas gerações. O estranho é ainda termos mais medo das palavras do que da coisa em si, poder assistir, mas não falar.

Para mim, o principal motivo desta quase incongruência é: falar implica em confissão.

A ciência já deixou claro: não estamos aqui para ser felizes, ou pensar, mas para nos reproduzir. O “resto” é o humano, suas profundidades complexas, complexos: transformou em pecado o gesto “mais natural da natureza”: aquele que assegura a perpetuação da espécie. O pecado é uma tentativa de sufocar na mente o que não se sufoca no instinto. Todo mundo quer, mas não se pode: e se criaram mecanismos do tipo vergonha, pudor, corar, recalcar, sublimar. Não interessa se o mundo sabe o que carregamos no íntimo, desde que não sejamos confrontados com o que de fato pode esclarecer tudo: a palavra. Como somos todos culpados (atire, você sabe, a primeira pedra quem não morreu por amor) a programação explícita da tv ao menos resolveu a necessidade de expressão do corpo. Falta resolvermos o humano, os verbos.

Calma, leitor, que não vou insuflar nova revolução feminina, desta feita pelo domínio do palavrão. Aproveito pra observar que a queima dos sutiãs como marco feminista é meio brega, salva pela força simbólica da liberdade inaugural: considerando-se os milênios de repressão, tirar o sutiã em massa foi como abrir comportas hidrelétricas. Felizes tempos, os nossos, brasileiros, em que a bagunça dos sentimentos ainda sobrevive à baderna corporal. Chegamos ao corpo, ao vídeo, galãs e mocinhas transando às 18h, mas o Eu continua misterioso, obnubilado por uma redoma, por um muro, uma comporta – de cuidados, de zelos, de carga cultural, de hipocrisia.

Tenha ciência disso: o que mais ocultamos é que é a verdade; o de que mais fugimos é a verdade; o que mais evitamos, o que não verbalizamos: eis a verdade. Chegar à verdade é mais simples do que se ameaça: feche os olhos, e responda em dois milésimos: o que você mais quer? A primeira coisa que vier é a verdade. De novo, em dois milésimos: se você fosse de fato livre, o que faria neste momento? A palavra que você não diz, por iniqüidade, por timidez, por fineza, é a verdade. Com Clarice Lispector: quando aprendo uma palavra, conheço mais a mim mesmo. De quais palavras vivemos fugindo? O que ocultamos, o que negamos, o que reprimimos, o que comportamos em nós? Sempre a verdade, a liberdade.

Encarar as palavras de frente é a última odisséia sexual. E estamos bem longe do porto: a verdade é simples, mas não é possível, e assim a liberdade, aquela que não se explica, mas todo mundo entende.