quarta-feira, 9 de maio de 2007

Crônica: Caetano canibal


Se eu tivesse que escolher um só show para lembrar, ficaria com “Prenda Minha”, na Escápole, final da década de 90. A platéia se entregou de tal forma às músicas que Caetano Veloso, igualmente, foi arrebatado. Caramba, como ele quis fazer aquele show, e como quisemos participar. “Terra”, com um arranjo percussivo e cadenciado, rendeu a bem dizer um momento de êxtase em massa: a galera gritando uníssona e Caetano, agradecido: “Belém beleza!”.

Dez anos depois, Caetano Veloso volta a Belém, com o espetáculo “Cê”, a partir do CD de mesmo nome. No palco, somente ele (que às vezes se acompanha à guitarra e ao violão) e três “pariceros” na casa dos 22 anos, de pegada roqueira. Não raro, o show soa como heavy metal, mas um heavy “marcado” por grandes músicos, pesado, sim, mas sem “sujeira”, “metalizado” pela execução perfeita, som agudo e até furioso, mas não pela agressividade tresloucada que vaza do genuíno rock. Até aceito que a real intenção, ali, não é fazer metal, e sim se apropriar dele, mas prefiro o veneno de um amigo: “Caetano não pode ser Mick Jagger, Mick Jagger não pode ser Caetano”.

Alerto o leitor que a memória é a única eternidade: a capacidade de recuperar o passado, de estar de novo com ele, recriá-lo, retê-lo: só as lembranças são eternas, diria James Bond, pois tudo é fantasia, dito popular não falha: “O passado não volta”. Triste enrascada: o futuro a Deus pertence e o passado já era. Resta plantar a árvore, fazer o filho e escrever o livro. Caetano escreveu o livro: é um artista inapagável na cultura brasileira, sobretudo por aliar, em alto nível, o poeta, o melodista e o cantor; e merece um tremendo elogio artístico: sempre buscou fazer o novo, mesmo a par da indústria cultural.

Oswald de Andrade usou a palavra antropofagia para introduzir o “jeito brasileiro” na grande poesia. O brasileiro seria, então, o que devora, o que assimila, o que deglute, o que transforma, o que recria e o que expressa o resultado disso tudo: um artista. (Olhe esse ditado da terra de Caetano: “Baiano não nasce, estréia”.) A obra de Caetano Veloso é a que melhor expressa, na música brasileira, esta qualidade em devorar, fundir, amalgamar, “metalizar” as muitas culturas (até a cultura de massa, a grande engolidora da globalização).

Se o leitor tiver paciência, talvez a obra consiga o que na vida é impossível: um tiquinho de eternidade: ora, para manter-se vivo como artista, Caetano, o devorador, precisa devorar-se: precisa superar os caminhos que descobriu, e que o consagraram, e desbravar novos, uma forma de enfrentar o tempo. E, com “Cê”, Caetano não apenas antropofagizou uma sonoridade (rock), como, literalmente, devorou os músicos, sessentão a deglutir no palco o espírito adolescente, moderno, geração MP-3: Caetano canibal.

Só mesmo o conjunto da obra pode responder ao tempo, daqui a um século, mas em vida garanto: o novo canibalismo caetânico resultou muitas vezes indigesto para o público, ao menos no show: não que o baiano se sinta deslocado na decisão estética de, sexagenário, tocar rock brabo: pelo contrário. E é delicioso vê-lo, adolescente, brincar com a própria condição de dono da MPB: cantou “Sampa” ao violão. Mas faltou emoção, empatia, “verdade”. Como diria aquele meu amigo, também antropófago, desta vez nem Caetano digeriu bem Caetano.

(Vi, num Rock in Rio, Neil Young a tocar de madrugada para 50 mil pessoas, e as luzes do descampado se apagaram enquanto muitos já buscavam a saída, e Neil seguia detonando, e era um monstro de verdade elétrica lançando relâmpagos nas estrelas: mas o show que eu escolheria para lembrar é mesmo “Prenda Minha”, na Escápole, quando eu e o mundo tínhamos dez anos menos.)

Publicada originalmente em O Liberal (09/05/2007)

2 comentários:

Glauco Lima disse...

Genial esta crônica!!! Respeitosa, consistente, criativa, construtiva. É como diz a Calcanhoto: Vamos comer Caetano
Vamos desfrutá-lo
Vamos comer Caetano
Vamos começá-lo

Vamos comer Caetano
Vamos devorá-lo
Degluti-lo, mastigá-lo
Vamos lamber a língua

Nós queremos bacalhau
A gente quer sardinha
O homem do pau-brasil
O homem da Paulinha
Pelado por bacantes
Num espetáculo
Banquete-ê-mo-nos
Ordem e orgia
Na super bacanal
Carne e carnaval

Pelo óbvio
Pelo incesto
Vamos comer Caetano
Pela frente
Pelo verso
Vamos comê-lo cru

Vamos comer Caetano
Vamos começá-lo
Vamos comer Caetano
Vamos revelarmo-nus

Valéria disse...

Oi, Coelho, como de costume adorei a crônica, não vi nenhum dos shows, mas a.m.o o Caê e a tua inventividade e achei tudo tão verdadeiro que ele bem merecia ouvir tuas doces e cortantes reflexões ao vivo, pra vê se toma jeito, se bem que, pra mim, só o que ele já fez, basta, ele tem meu perdão eterno. Beijins, Valéria.