segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


2 - Morar em Vila

As três travessas da famosa Vila Farah, em Belém, têm nomes míticos de rios: Tocantins, Tapajós, Xingu (à beira do qual morei, Altamira). Toda Vila evoca uma intimidade interiorana, até por enfileirar casas, com os quintais que nos restam. E ainda que tomadas - como a Farah - por um entorno de hipermercado, escolas, trânsito infernal. Noite dessas, no início da Tapajós, li, súbito, o muro colorido: ”Para que Deus cuide de meu avô e todos os grafiteiros”.


Talvez o avô more há séculos aqui na Vila, ou esteja doente, ou seja arrimo de família, ou o menino não conhecera os pais, ou tenha escrito a frase espontaneamente, sem maiores motivações; certo é que temos um garoto – não pichador, e sim grafiteiro, artista expresso nas ruas – ligado a uma Vila, ainda que nem nela more.

Os meninos de trinta anos atrás saíam mais a campo, conheciam pipa e pião, tinham um maior contato motor com as coisas. Os de hoje, acessam outros ambientes, mediados por computador, e travam relações inaugurais na formação da personalidade. Toda Vila, diria Drummond, é um menino antigo, mesmo que cada fachada seja apenas a fachada para uma máquina em rede, operada por mente cyber em tudo ligada.

O encontro do menino e do avô na Vila Farah - um que começa a conhecer as próprias memórias, outro que talvez já passe o tempo lembrando; o ligar-se entre o presente do indicativo e o futuro em consumação; a tangência entre a memória real (criança) e seu desfecho em algumas décadas, que reviverá este agora: a frase no muro é um canal, um portal, uma apropriação do tempo, como a elaboração da vida nas biografias.

Lembrar gera uma sensação que, tão ligada a outras, vira sentimento, e o nome dessa conjunção, dessa juntura de dimensões é nostalgia: ser possuído pela memória. E não reflete só a meia ou a melhor idade - a nostalgia nos é inerente: basta, por exemplo, o guri mudar-se para um lugar distante e cinco anos depois, ao deparar-se com uma situação longínqua, lhe invadirá esse mágico e inexplicável bem-estar. “De novo! de novo!”, repete nosso filho irrequieto, e vê cem vezes “Branca de Neve”, e o filme passa, ao mesmo tempo, na memória (decorou todas as falas) e na realidade (tv).

Este sentimento da nostalgia, que parece uma pousada antes do êxtase, este encantamento infantil é um dos mais democráticos bens na humanidade. Até a rua desgraçada que, anos depois, recordemos nos arrebatará para uma tentação de prazer. E todo rio que se nos depare, mergulho certo; e as comidas da minha época, “feijão de mãe”; na lembrança, infância ou é sempre boa ou foi doída demais, e mesmo a dor vira prazer na nostalgia: graça, purificação, redenção pelo reencontro com o passado, presente composto de todos os tempos.
Descobri ontem que confundia os nomes de dois cinemas da infância e adolescência: o de Altamira era o Cine Bonay, e não o Cine Argus, que ficava em Castanhal (no qual vi, de forma fulminante, os seios de uma assassina num filme de Kung Fu e quase desmaio, como que atingido por fragmentador golpe de joelho). Também tive por reais fatos imaginários, inverossímeis; passei anos crendo na existência do unicórnio; a realidade ali não era o passado, como na comum nostalgia, mas uma invenção, real gerado por engano na memória; quem dera deparar hoje um unicórnio, duplamente maravilhoso, ser irreal a fitar-me parado, e ser irreal por acontecer no pretérito; “duplamente plena” sensação da memória: nostalgia que torna real não só antiga casa ou muro, mas a própria fantasia. (Que diferença faz se o grafiteiro da Vila Farah for jovem ou adolescente? É sempre um menino quem diz “Pra Deus ajudar meu vô”.)

Um comentário:

davi disse...

Estava procurando um blog da Vila Farah e achei o nome dela aqui no seu blog, aproveitei e li sua crônica, a considerei linda demais. Parabéns!!!
Vou ser seu seguidor, a partir de agora.Faço o convite para visitar o meu blog: utilitario.criarumblog.com