segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


4 - O sexo e o ventre

Simples é transformar o muro em ecossistema: plante-lhe uma trepadeira, e os fios dos galhos tomarão o cimento feito intrínseca malha verde, e o reboco encrespado se cobrirá de vida e se alegrarão a casa e a rua.

Essa planta, a trepadeira, demonstra bem o quanto é linda e apavorante a luta pela vida.

A ordem ali é crescer, se irradiar, criar um ramo para cada direção, um olho de folha para cada espaço, crescer, viver, garantir-se, qualquer superfície, grudar-se e trepar-se, ocupar-se em ocupar, florescer-se infinitas folhas para se multiplicar de forma infinita.

Entre os humanos, nada é o que parece que é, mas nunca titubeie: também “nascemos para viver”, nos reproduzir, gerar e gerar, perpetuar. É quase de se agradecer, de joelhos, à natureza o fato de os homens lançarem bilhões de espermatozóides numa só descarga.
E por que você acha que entrou para o cotidiano o conceito de que o homem pensa com o lado errado do corpo, de que seria movido pelo órgão sexual?

Sem dúvida, mas isso, claro, também vale para a mulher, que é, então, biologicamente, celularmente, movida pela...

Aí é que é, leitor.

A mulher talvez não seja determinada pelas regiões altíssimas, pela perseguida, pelo desejo sexual - mas pelo ventre.

O homem quer povoar o universo, e portanto deseja a beleza.

A mulher quer a segurança (para o filho), quer uma mansão e treze generais (para o bem-estar e tranqüilidade dos filhos), deseja um jatinho e apartamentos em Miami e Paris (para passar mais tempo ao lado do filho). Ainda que não tenha, não pretenda, não possa ter filhos.

Por isso toda mulher fica tão bem como rainha da “realidade”, rainha do universo em que os meninos da mamãe serão felizes. E, necessariamente, este universo do “real”, a que a mulher tanto se dedicará por ventre, será também aquele que mais conhecerá, dominará, sobre o qual reinará. (Não esquecer que no “real”, além da segurança deliciosíssima do dinheiro, estão as maravilhas do poder e das intrigas.)

Entre o desejo imperioso de reproduzir a espécie (para o que fomos gerados) e o ato em si, há, em toda mulher, o ventre.

(O macho e seus trilhões de espermatozóides, a fêmea com um número contado de óvulos...)

Para além da palavra feminismo, eis a grande questão, psico-biológica, que a mulher resolve nesta exata era: a separação de desejo (o sexo) e ventre, a isenção entre a compulsão física de se reproduzir (sexo) e o pensar no dia de amanhã - no filho saudável, inteligente e para sempre da mamãe.

Não se falem aqui de certas jovens - lindas como a morte - que transam com tanta liberdade que parecem mesmo livres. Nem de conquistas quase vulgares como pílula do dia seguinte, camisinha feminina, tabela. (Lembra aquela atriz pornô que transou com trezentos homens ao mesmo tempo num filme?) Não se trata da derrota/vitória, na mesma mulher, da mãe para/sobre a paixão, não é tão somente manter-se de amor ou sucumbir à fraqueza “imediatista” da amante: a mulher é mãe pela própria natureza e, como tal, passa-lhe antes ao ventre – por quantos meses ainda? - não apenas o instinto, como qualquer ondular de cada fio de cabelo, dela e de qualquer bebê de qualquer idade.

Essas amantes amadas (trilhões de estrelas) que nos seguem no universo recolhendo feito mães: ardentes, mandonas, e ali.

Um comentário:

katy disse...

bom, eu (ainda) não sou mãe, mas já sei que quero segurança para os meus futuros filhos. não precisa de jatinho, nem mansão, mas com certeza o "ventre" fala mais alto!!! p.s.: estou divulgando um blog que fiz com amigos. nele a gente discute 1 livro por mês. o livro da vez é "memórias do subsolo" de dostoiévski. adoraria receber sua visita nesse blog e saber qual a sua opinião. o endereço é http://linumlivro.blogspot.com obrigada.