segunda-feira, 16 de março de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"

- - - - - - - - - - - - - - - - - "Auto-retrato triplo", de Norman Rockwell

12 - Qual é a sua tribo?

A crise do Eu é por certo contínua, “Eu, o que será?”, mas faz pouco tempo que ganhou a inteira dedicação de um gênio: Fernando Pessoa. Vejamos-lhe: “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?”, “Eu não sou eu/Nem sou outro/Sou qualquer coisa de intermédio...”. Tais questões, em que Pessoa certamente não acreditava, nunca foram tão pertinentes: o que sou eu, no advento da internet? O que sou, sei lá, depois de comparado a milhões de pessoas do mundo, pela tv, computador? Resulto igual? Diferente? Maior, menor? Sou o quê? Será mesmo que a mundialização da informação uniformiza tudo? Serei o Outro?


“O que sou eu?” é a pergunta mais constrangedora da praça. Não que sejamos menos “felizes” ou risonhos do que cem anos atrás, mas hoje nossa felicidade-e-riso é muito mais exposta: comparada, confrontada, assemelhada, reconhecida, popularizada, mostrada, quinze minutos atualizados de fama, no site, fama-compartilhada.

Escrevo ao computador, estou em qualquer lugar, tal qual a bióloga talvez da Austrália. Será? De qualquer forma, depois da tv, do satélite, da Lua, do genoma humano, de Freud, de Shakespeare, das verdades involuntárias, das mentiras, da internet, das seitas, da “pobreza de mercado”, de aceitarmos a mentira do início ao fim do dia (de praticarmos a mentira), depois do acordo de pizzaiolos com a realidade (metade do que vivemos em setenta anos é inverdadeira), depois, enfim, de a credibilidade do nosso Eu ter ido para o brejo, Fernando Pessoa soa verídico, verossímil, legitimado nas atuações literárias quando escreveu sob a personalidade de heterônimos. Mas a realidade não tá nem aí.

Há quanto você se perguntou: O que sou eu?

Há quanto tempo sua filha adolescente, duas horas por dia na internet, se indagou no almoço “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou”?

No entanto, minha filha de 16 anos é 2,77 vezes mais esperta do que eu na idade. Tem os mesmos dramas amorosos, as mesmas ansiedades, e tantas eternas coisas sem saída. Irresponsabilidade, inconseqüência, e angústia, e batalhas interiores de ter que “fazer”, quando o que presta é “viver”, tudo dividido com milhões de amigos, antenizada: óbvio que cada um continuará a ser seu cada qual, a informação é apenas uma ambiência em que somos únicos nos temas perpétuos, amor, sexo, Eu, Outro. E Fernando Pessoa matou a pau: o Eu pode ser simplesmente fantasia.

De fato, nunca foi tanto fantasia, agora que mais pessoas nos vêem, enquadram, revelam-nos - seríamos, apenas, reses replicantes no rebanho consumoso? Somos nosso site, anúncio de nós idealizados? Não, certamente, que a emoção, verdadeira, nos suplanta, então o quê, como definir o que somos, e assim nossa geração e nosso tempo? A resposta ou está antes ou depois da pergunta, não durante, porque quatrilhões me vêem, mas, eu, nunca verei meu rosto.

Esta questão genial não desaparecerá, tão infinita quanto o Universo.

(Um dia vão me clonar e olharei para meu igual e por seis dias me conformarei que jamais serei eu, porque não me verei.)

A crise do Eu é até onde vamos, até onde ousamos - o Eu não tem fundo -, envolvida por tal imbróglio: não ver o próprio rosto faz do Outro intransponível objeto de adoração e competição, de inveja, de projeção, de achar, por exemplo, que o outro é “mágico” porque mora na montanha, quando o é porque nos vê de fora. O rosto é a única questão que restará.

Os de mais de 30 anos adquirimos incrível senso crítico quanto ao presente; não assim quando tínhamos 17. O ser humano já sobreviveu ao gelo, já manteve a cadeia evolutiva por poucos indivíduos, quase extintos na poeira da neve, sobreviveu a todos os Calígulas e aos presidentes de república, como não resistiria aos games intergalácticos, ao Orkut e à volta do Clodovil?

Um comentário:

Michelly Murchio disse...

Caro Edson, somos mais do que sobreviventes, somos heróis pós-modernos! Os meninos do Titãs tinham razão... "eu sou de nenhum lugar, sou de lugar nenhum". Nunca mais te vi lá no meu blog, tem pelo menos 3 textos novos.