
30 - O centro de Belém
Em entrevista recente, o professor Benedito Nunes comentava a necessidade de as cidades terem um centro: lugar de encontro, convívio, integração. Um lugar de todos os cidadãos: com prazer, auto-estima, respeito. Neste sentido, domingo passado as ruas de Belém, no Arrastão do Pavulagem, e depois a Praça da República, no show do Arraial, foram o centro de Belém. Um centro que se movia na medida em que o povo.
Em entrevista recente, o professor Benedito Nunes comentava a necessidade de as cidades terem um centro: lugar de encontro, convívio, integração. Um lugar de todos os cidadãos: com prazer, auto-estima, respeito. Neste sentido, domingo passado as ruas de Belém, no Arrastão do Pavulagem, e depois a Praça da República, no show do Arraial, foram o centro de Belém. Um centro que se movia na medida em que o povo.
Quinze mil rostos nas ruas, todos os corpos, todos os sorrisos. Devassos, pobres, intelectuais, devotos, artistas, ricos, talentosos, pernas-de-pau, a Praça da República tornou-se toda a cidade.
O elemento aglutinador era a cultura popular - forma de expressão e auto-afirmação do povo -, capitaneada pelo boi-bumbá. Aqui valem duas palavras sobre o bumbá, a partir de considerações do maestro Julio Medaglia sobre o samba: tal qual o samba (no carnaval, as baterias são orquestras de batuque para quatro mil dançarinos) o boi-bumba é uma música coletiva, feita para agregar, não individualizar, para ajuntar, interligar, daí repetir a batida, a mesma para todos, em qualquer lugar da praça, reforçada pela dança: samba que é ritmo sintetizado numa caixinha de fósforos e é também dança, como o reggae e a valsa, ritmos sintetizados em dança, correspondência corporal, sons e movimentos repetidos, aglutinadores. Talvez pensou o leitor que essa necessária repetição empobrece os arranjos e as melodias; no entanto, basta dizer que Paulinho da Viola, que dá de dez no Chico Buarque em tradição, mereceu da vida essa história: mostrou o samba “Foi um rio que passou em minha vida”, ainda na avenida, logo após um desfile frustrante da Portela no carnaval - e quem ouvia já memorizava, e a música passou a se reproduzir, e a tristeza pelo desfile falho se extravasava naqueles versos, e das ruas o samba saltou para os ônibus, e invadiu bares e metrôs, e simplesmente se tornou um clássico instantâneo: cantada pela cidade horas depois de mostrada a algumas pessoas. E “Foi um rio...” é uma das melhores letras/melodias da MPB.
O grupo Arraial do Pavulagem não apenas toca boi ou lundu: é uma síntese de lundu e boi: sonoridade compacta e personalíssima - a despeito das batidas clássicas -, apurada em vinte anos de estrada: a partir da livre iniciativa de cada músico, atingiu-se uma digital sonora como poucos grupos hoje no Brasil. E, a muitos belenenses, o Arraial transporta para instantes clássicos da memória, canções que arrebatam, primeiro, pela melodia bela, que toca o sentimento da música, o estado da música; e são motes do que, outrora, aglutinou sentimentos intensos em nossas vidas, isso desde que votar em Lula contra Collor foi estar à beira de uma revolução. Os sonhos políticos são bem diferentes agora, se é que são sonhos, mas uma coisa é igual tipo na universidade: as meninas. Índias, negras, negras, índias, brancas, ruivas, intensas, revolucionárias; na praça entupida, qualquer um pode ser Ovídio, e se interessar por todas as mulheres que existem, desvelando em cada uma peculiaridades e ardores.
Não sei se era já a própria embriaguez, ou se a Daniela vai me matar hoje ou depois de ter nosso filho (mês que vem), mas o fato é que as meninas eram as mesmas do passado, então como não olhar, espantado, deslumbrado com o fenômeno que parecia um espelho numa dobra do tempo: como não reconhecê-las, vinte anos antes, da universidade, depois das aulas, o bilhar com cerveja, o Bar do Parque fervilhante de artista e prostituta? (Mulher no bilhar não precisa nem ser Ovídio.)
Enquanto houver tanta pobreza, não existirá um centro, digamos, democrático. Nosso centro está onde o povo está.