quinta-feira, 23 de julho de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


29 - Um outro real

No filme “O Exorcista”, um padre-psicólogo esclarece a consciência da Igreja quanto a possessões demoníacas e a algumas visões santificadas: depois da descoberta do inconsciente e de doenças como a esquizofrenia, “sabemos que muitas dessas visões não passaram de delírio”. Na esquizofrenia, a pessoa desenvolve uma vida paralela - a do delírio - e nela acredita, e as lembranças são reais. De tal forma que, quando se descobre doente, uma das maiores dores é saber que muitas memórias são ilusões.

Você certamente já viveu momentos tão intensos, tão mágicos, ao ponto de, depois, o tempo ter passado tão rápido que tudo se tornou uma espécie de sonho. “Parece que não foi real”, dizemos de rosto afogueado, ainda hipnotizados por uma pausa reconfortante da vida. Esta crônica seria sobre tais momentos, mas confesso uma intenção do arromba.

A casa de Tarcísio é também um ateliê-galeria. As cores são extravagantes, os móveis são estilizados, a iluminação é extremada (“mais clara que o dia”). Ali, mesmo o que não é artístico torna-se, por osmose, por evocação, por simbologia. Assim, o armário é autêntico - abriga discos, livros, anotações. Mas, cercado de tantas telas, de tanto sugestionamento, deixa de ser objeto: vira objeto, como numa instalação. E assim as cadeiras, o porta-CDs, o cinzeiro - tudo se transforma, se metaforiza - personificações.

As coisas nos são se as somos - tornam-se vida não paralela, mas superposta à nossa de cada dia, vida nova, mas sem nada de ilusão, nova vida real, que não é delírio, mas imaginação. Sábado desses, num encontro em casa de Tarcísio, aconteceu algo que torna ainda mais tênue a distância entre essas todas dimensões. Em determinado momento (você não terá vivido isso?) tive certeza de que estávamos numa cena, como no teatro, mas sem ter consciência de que representávamos. Continuávamos nós, cinco pessoas senhoras dos atos, mas obedecíamos ao roteiro, a uma marcação, como num ato. Ora, se o texto não existia, preenchia-se a lacuna com a intuição: o texto não fora escrito, apenas imaginado, e chegava até nós pela memória da arte (a cena recordava-se em nós), arte que é subjacente, inconsciente como um segundo espírito, uma segunda alma, e assim (inspiração) é sempre a senhora das próprias obras. Éramos iguais às coisas em importância cênica, trans-figurantes, supra-reais, tornando verdade uma imaginação inexplicável, do campo da “irrealidade”, e que, naquele momento em que se deixava surpreender, não poderia ser negada.

Esta é uma crônica sobre a memória, mas não chega a ser um convite para que o leitor corra a uma galeria, a uma biblioteca, a um teatro. O convite é outro.

Anotem com cuidado isso, meus fraternos: o que não esqueceremos, o que nos marca, o que lembraremos como num sonho (de dor ou prazer) é que justifica a nossa vida, “prefira um minuto de intensidade a mil anos de banalidades”. Quantas vezes, por pura preguiça, passamos um domingo igual aos outros, quando percorrer ruas desconhecidas poderia gerar novas lembranças, quando ir à videolocadora e descobrir um clássico poderia mudar nossa vida, quando pegar o carro e almoçar numa cidadezinha próxima poderia gerar uma sensação nova.

Cada um de nós é um feixe de tempo, e quando multiplicamos por dois, o tempo em feixes adensa-se, e quando multiplicamos por mil, o tempo materializa-se, concretiza-se, potencializa-se, e quando multiplicamos por milhares, o tempo produz um estágio estranhamente puro de imaginação.

Abrindo o jogo: se nunca foi, vá, hoje, ao Re-Pa no estádio do Mangueirão. Você, um dia, poderá até duvidar se foi sonho. Mas jamais esquecerá.

7 comentários:

Edir disse...

Eu estava lá e essa irrealidade se transformou em uma canção que soa por si mesma, contra o ensimesmamento do real. Um abraço...

firmafortedocerrado disse...

Bom dia Edson.
No começo do texto pensei estar lendo algo sobre o real, e a tentativa de descobrir ou provar tal fenômeno.
Compreendo praticamente a maior parte das impressões e sensações exemplificadas na mensagem.
Mas discordo amplamente, se bem compreendi, do exato momento no qual nos damos conta do que "é viver". As impressões fortes e rapidas nos dão sabor da vida. Mas como jà citei uma vez no meu blog a frase de David Hume:


"La coutume, ainsi, est le grand guide de la vie humaine."




(David Hume / 1711-1776 / Essai sur l'entendement humain)


"O custume, assim, é o grande guia da vida humana".

Verifique vendo a mensagem chamada CAMPO FORMIO, datada do 2 FEVRIER, acompanhada de um video.

Talvez sera interessante provar um ponto vista tal.

firmafortedocerrado disse...

A proposito, VEJA O VIDEO!!!

ines disse...

metáfora é tudo o que 'cabe' no poeta(quando a vemos como recurso formal poético).cabe, assim, uma cidade, um sonho, um sol.
metáfora é vida, se vista não só como recurso formal, é defesa. È filtro emocional, psicológico, vivencial.
Metáfora é poesia.Sinônimo de transformação do cotidiano.
Seu livro ganha uma sequência bem interessante se seguir a ordem dos últimos pots.
A pintura da postagem deve ser metáfora de um sonho, pra quem o pintou.E por motivos outros, pra mim também o é.
Viu? A metáfora está mesmo em tudo.
'ablaço' D
ines

edson coelho disse...

bem lembrado: "desentranhei" um poema dessa crônica, que mereceu bela música sua, edir gaya; reproduzo abaixo o poema:


Poesia

Em casa de Tarcísio -
ateliê-galeria –
tudo ao mesmo tempo é real e imaginação:
o armário, as cadeiras, o cinzeiro
são mais que objetos, são objetos:
personificações.

Clima perfeito
como numa nostalgia,
transposta entre amigos e:
as coisas nos são se as somos.
E hoje reproduzimos
uma cena antiga,
imaginada mas nunca escrita,
obra apenas da memória da arte:
cena que se recorda em nós,
trans
figurantes,
supra-reais



leio uma crônica de argumentos
e Bóris comenta: “Cercou o frango!”;
Neoma desenha;
(Tarcísio foi ao bar): TELAS;
Gaya gargalha para Shakespeare;
a comida avisa
que está quase pronta.

edson coelho disse...

mateus, fui ao seu blog, e conferi o vídeo acompanhado da frase do david hume: incrível. você filmou? cara, fiquei impressionado com a emoção do troço (violino é fogo, né?) e, ainda mais, com a relação que você fez com a questão do real e o instante em que a vida bate. tenho certeza de que a cena é semelhante à que vivemos em casa de tarcísio - tão mágica que parece irreal, de outro mundo, de outra sensibilidade, de outra imaginação. obrigadão.

tarcísio disse...

Eutambem estava,mas saí para comprar cerveja...