quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


47 - Mágoa e perdão

Por que magoamos a quem nos ama e a quem amamos? Esta pergunta deixa nuinha, sem sombra de dúvida, toda a maldade da raça.

Num mundo duro, egoísta, competitivo, sucede o milagre do amor, da amizade, da camaradagem; e a gente, por egoísmo, por inveja, por mesquinharia, fere a amizade com o punhal da língua (ou, muito pior, dos atos, traições). De hora pra hora, num impulso, num rompante, num romper-se de dique, falamos as maiores indelicadezas a quem mais nos ama e amamos.

Já tive o prazer de afirmar que a constitutividade psíquica dos humanos é semelhante a uma câmara de borracha: enche, enche, enche e precisa explodir; remenda-se, enche, enche, e de novo explode e remenda-se. Na prática, acumulamos os dissabores do dia-a-dia, uma frustração aqui, outra acolá, desgastes no trabalho, na família. Os dissabores inflam a câmara de borracha de nossa psique; em certo momento – se estivermos mal, ou bem demais, ou sob pressão, ou magoados –, a borracha rasga-se por meio da língua-punhal, aquela que fere de uma vez a quem amamos, e a nós, continua a nos ferir pelo tempo afora.

O leitor certamente já passou pelo drama: magoar alguém que ama ou ser magoado de forma inesperada. Foi uma explosão, foi a pressão, foi a primeira válvula de escape que surgiu: e ferimos; e nos feriram. Tudo muito humano, auto-explicável, manifestações da maldade carnívora da espécie. Ou não? (Talvez o mais triste seja descobrir que nós é que somos tão humanos.)

Nesse mundo duro, egoísta, temos obrigação de cuidar do amor - que nos ampara, nos fortalece, sem ser a nossa mãe. Cuidar do amor é até um sentido de auto-proteção – se aí quem fere sai mais ferido. Nada deveria merecer maior atenção, dedicação, agradecimento. O amor não é uma ilusão, em que é preciso “acreditar”: ele é o sorriso (que ilumina), o abraço (que impulsiona), a água e o sol (que frutificam). O amor é simplesmente o bem, e não há tratar o bem a punhaladas.

Hoje, que a saudade me passou a manhã cutucando a consciência, achei por bem pedir logo perdão, de coração, às amizades que magoei e, humildemente, liberar os que me magoaram de sentirem ainda algum remorso.

3 comentários:

Anônimo disse...

deixa sentir ... o sal da terra. a paz na terra! que assim seja!
ines

Anônimo disse...

deixa sentir ... o sal da terra. a paz na terra! que assim seja!
ines

Mercimery disse...

Antonio parabens lindo texto, quero pedir-te permissão para usar o ultimo paragrafo desta emsagem em um livro que estou escrevendo, claro em nota de rodape colocarei seu nome e o seu blog ou como voce achar mais conveniente.Se tiver tempo olhe e siga meu blog Perdoar é Viver. e envie a autorização por e mail por favor mercimerilucia@hotmail.com