sábado, 29 de junho de 2013

Musicanto














Partitura

“Um instante, maestro!”.
E a música fica suspensa em si mesma,
olhando pelas frestas dos instrumentos.
A música força o peito dos músicos
de dentro para fora. E, na platéia,
causa a impressão de soar
de fora para dentro.
O que acontecerá comigo,
que não conheço o programa,
se o maestro não retomar a audição?
Até quando poderei suportar
essa angústia, que não sei nomear,
suspensa em algum ponto em mim,
que não sei qual, pela interrupção
de algo que estava não previsto,
mas já consumado no tempo
e não se confirmou no espaço:
como um voo que partiu
sem a asa-delta?
A música soa, e nos liberta.


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Um poema do Nobel Derek Walcott



Arquipélagos

No fim desta frase, vai começar a chover.
À beira da chuva, uma vela.
Lentamente a vela irá perdendo de vista as ilhas;
A crença de uma raça inteira nos portos
afundar-se-á na neblina.
A guerra dos dez anos terminou.
O cabelo de Helena, uma nuvem gris.
Tróia, uma cova de cinza branca
junto do mar onde chuvisca.
A chuva retesa-se como as cordas de uma harpa.
Um homem de olhos nublados toma-a
e dedilha o primeiro verso da Odisseia.


Derek Walcott, Antilhas (1930)
traduzido por Nuno Dempster

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Galeria: Caravaggio (Cupido)


Irrealismo mágico

As asas e a lágrima

A chuva revirava a noite do vilarejo;
ao longe, as bandeiras que restaram do São João, 
cores plastificadas entre árvores retorcidas;
muitos viram, pressentidos: semelhavam bandeiras
desprendidas, mas eram asas, um par de asas
arrastando-se em chumbo pelo ar devastado.
Alguns até tiveram o impulso de sair à chuva,
ajudar, talvez, mas como? Ninguém estranhou
quando as asas, num esforço arquejante,
se arrojaram à frente, transpassaram a janela
e planaram por instantes, pousando sobre a mesa
na casa de madeira. Em segundos, dezenas de pessoas
se admiravam em volta, silenciosas, sem medo,
e as asas evocavam um ser humano, mas sem corpo,
estavam exaustas, a respiração trêmula, prostrada,
e queriam descansar, mas sem olhos. A água lhes escorria,
penetrando a madeira da mesa, e se notava a pele gretada,
como que percorrida por um deserto, cabelos, não penas,
ralos, finos, sobre a pele membranosa, e o silêncio
se aconchegou ao trepidar da chuva, e as asas dormiram,
palpitando na mesa. A dona da casa envolveu-as
num lençol, e pôs sobre o colchão na própria sala,
e em silêncio todos se deslumbraram,
e o silêncio se alteava com o esmaecer da chuva,
e quando tudo era silêncio, um temor se instalou,
como se, de hora pra outra, algo extraordinário
se sucedesse – bom? ruim? Quase todos velaram
por toda a noite, o temor silencioso, e aos primeiros
raios as asas se mexeram, e se desvencilharam do lençol,
não tinham olhos, mas estavam serenas, e percebiam cada
pessoa presente. Minutos depois, numa vibração
que se aproximava de muito longe, cada um começou
a lagrimar, sem razão - pareciam tocados pela mesma
lágrima, e escorriam a mesma dor, mas não - a lágrima
era a mesma, mas a dor era de cada um – como num
chamado: deixa a dor entrar, pelas mãos, pelos braços,
deixa a lágrima percorrer o corpo e a ela afluírem
os desenganos, as frustrações, teu sofrer resguardado,
teu brilho pilado, teu calar heroico, e depois do corpo
o pensamento cabisbaixo, o sentimento deixado para trás,
e antes do corpo, antes da pedra, da seiva, a dor primeira,
gêmea da luz, a dor que a própria vida arrasta
como asas presas a invisíveis grilhões, asas-grilhões,
a dor que suturou o universo do teu corpo
antes do fogo fundir na água o mineral do nascimento:
deixa a lágrima rolar a dor que nunca conhecerá
a si mesma.
Embebidos da lágrima, todos despertaram para as asas
repentinas, esvoaçantes, alçando-se rumo à janela
e se desvanecendo em sereno ensolarado, para espanto
das crianças.