segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


6 - Crianças e tecnologia

Poucos anos atrás, dizia-se que 90% das funções do videocassete eram decorativas. Hoje, os DVD’s oferecem ainda mais recursos, igualmente inservíveis a um humano normal. A menos que esse humano use fraldas.


Minha filha está por completar dois anos e opera o DVD melhor que eu. Aperta botões de toda ordem pela casa, e reconhece as luzes das funções, e bisbilhota as tarefas do meu inescrutável celular. As novas pessoas têm, de berço, “intuição” para botões e prefiro nem falar de computador.

Nosso futuro será dominado pelo tecnicismo, com o homem em total dependência emotiva da máquina? Não, muito pior: a máquina será colocada dentro de nós, e desenvolverá relações biológicas com nossos primários circuitos.

Hoje a ciência já implanta maquininhas que passam a vagar por nosso corpo a coibir ou estimular funções. Em breve, a dor de cabeça será anulada não por paracetamol, e sim por um circuito que produzirá ou bloqueará impulsos.

E as novas tecnologias não se restringirão a combater os males, mas servirão para “melhorar” a espécie: e circuitos ultra-minúsculos se implantarão em nossos cérebros, e nos tornarão mais inteligentes, e sexualmente mais viris, e couraças titânicas nos permearão o coração, que baterá por quinhentos e poucos anos...

Veja bem, tudo ainda de forma natural, apenas alguns robozitos a ajudar o corpo a funcionar melhor, num mínimo de longevidade.

Drama na carne da poesia será quando enxertarem em nós uma vida estranha ao corpo, não apenas células de outros animais ou plantas: quando enxertarem memórias do inexistente. A memória, a memória, a memória é o cinema de nossas próprias vidas, a irrealidade real, a verdade do passado permeada pela fantasia, o fato ancestral rematerializado em tela de imaginação. O corpo criou dentes para o alimento e o ataque, pêlos contra o frio, raízes para a água subterrânea aos ventos. O mesmo corpo terá criado, por necessidade vital, genes transmissores da memória essencial, não apenas heranças “genéticas”, como a capacidade de ouvir ou criar música, mas a própria música: o pai já passa para o filho Mozart, Beethoven, Beatles. Não há dúvida de que, para além da capacidade de ter memória, transmitimos logo lembranças, e isso nos faz ser menos voláteis num mundo doido, inconfiável, perdidíssimo dentro do infinito. Pois justo esta memória milenar que nos torna sólidos, que nos dá alguma confiança emocional, alguma longevidade diante da pequenez, esta memória terá um genérico a ser implantado, comprado nas esquinas a camelôs de piratas, e as pessoas serão mais felizes com memórias à escolha, um real não apenas imaginado, como o é no fundo todo real, mas uma realidade sem raízes, sem ligação com o passado também infinito, Mozart, Beethoven, e esse romper-se o cordão imemorial nos fará 100% lunáticos, zumbis intergalácticos da memória.

Ou quem sabe acontecerá algo ainda pior? Da mesma forma que o corpo criou dentes para matar e pêlos contra o frio, e criou os genes que transmitem aos filhos os compositores preferidos dos pais, poderá criar também um “passado genético”, uma “simulação real” que justificará, “nas células”, todas as falsas memórias, implantadas, que assim se tornarão reais (como mulheres que acreditam estar grávidas e até produzem leite), e não me surpreenderia se, assim, a própria origem da vida se modificasse para além da competência da ciência, desviando do Universo nossa busca.

Em verdade, pode ocorrer algo mais ingrato: o corpo que criou dentes, pêlos e genes-Chico Buarque gerar, ele mesmo, um aparelhinho, ainda na barriga da mãe, platinado e com um zumbidinho insuportável.

3 comentários:

b disse...

Gostaria de acreditar que a alma tem mais força.
Gostaria apenas.
Lembrando do replicante do filme "Blade Runner", em que ele o replicante, começou a sentir algo parecido com alma.
Obrigada.

katy disse...

eu ainda acredito que serei mais forte...

Anônimo disse...

Perdoe meus erros como português não é meu idioma nativo. Hoje o dia nós temos os implantes para ajudar as pessoas que perderam o audição deles para ouvir novamente. Nós temos a tecnologia para ajudar aqueles que são paralisados a recuperar movimento nas mãos e pernas. Mas nós temos que rezar que o dia não virá que o homem cria o implante ou o computador para substituir a emoção humana, o calor humano e que que nos fazem amar que nos fazem odiar ao mesmo tempo.