terça-feira, 1 de setembro de 2009

LIVRO "BOM DIA - 61 NÃO-CRÔNICAS"


35 - Toda mulher é sonsa

Depois da provocação do título, sei que as caríssimas estão checando a crônica, para ver qual é: o que coloca o autor como um declarado aprendiz da sonsice, que é a velha esperteza com inteligência, também conhecida como oblíqua e dissimulada. A provocação maior, no entanto, é falar certas verdades não às mulheres, em tom comedido, e sim entre machos, como no seguinte papo de vestiário de futebol:

- Sabemos que milhões de anos de repressão deixaram as mulheres mais minuciosas – capricha Sibelino. – E se o cara bobar, elas manipulam até ao ponto da omelete.

- Certas coisas não deveriam ser pronunciadas nem em estádio de futebol – completa Mauro, com um meio-sorriso - mas vou repetir aqui uma máxima de meu pai. Ele diz que, se o indivíduo deixar, as mulheres montam no lombo, enfiam os calcanhares nas costelas, seguram nos dois chifres e manobram: pra cá, pra lá...

Os quatro amigos riem, à vontade.

- É só observar quando elas chegam a algum bar, pra caçar – referenda Gaiato. – Porra, quando um homem chega, passa logo o pente fino em todas as gatas, e quando uma passa, olhamos direto pra bunda; elas, não: chegam, cumprimentam as amigas, sentam-se, pedem um copo de qualquer coisa com água tônica e só então (por cinco segundos!) passam a vista e sacam tudo.

Novos risos, e Maraca também se aproveita:

- E quando começam a falar das que estão ausentes?

Risos de novo, acompanhados de gestos bruscos.

Maraca prossegue:

- Pode ser a melhor amiga, a eterna, a companheira, mas sempre sobra um questionamentozinho, uma alfinetada.

- É que as mulheres lidam melhor que nós com a inveja – dardeja Sibelino. – Elas admitem a inveja para si, e falam sobre isso sem problemas, e principalmente praticam com fervor!

Os risos estão ainda mais altos, os gestos, mais largos.

- Mas tem uma coisa aí – Gaiato pondera. – As mulheres não encaram melhor só a inveja. Elas realmente dividem as dores, todas as dores, cara, até a dor-de-corno, que os homens não suportam admitir. Então, no cotidiano (essas besteirinhas que a gente faz), as mulheres vão lá e aproveitam logo pra se vingar, digo, extravasar, afinal é entre amigas, e isso deve fazer um bem enorme ao espírito.

- Mulher chorando é a coisa que mais me parte o coração – corta Mauro, algo sentimental. – Sem brincadeira, dá vontade de arrancar todos os cabelos quando vejo uma mulher chorando, reclamando de algum ponto obscuro da existência.

- Da existência, não, elas reclamam é de companheirismo! – espeta Sibelino.

- É por isso que mulher só sai em bando! – apunhala Maraca.

- É a necessidade de falar! – arremata Gaiato.

- Se uma mulher não falar sobre seu dia, ele não aconteceu – Sibelino viperino. – Elas precisam crismar os fatos comentando-os depois.

- Em detalhes, e com notas de rodapé! – Gaiato gargalha.

- O que me espanta é que, apesar de toda essa experiência emocional, elas são sentimentais, sonhadoras.

- Caramba, acreditam no amor! (Sibelino).

- Esperam o príncipe encantado! (Mauro).

- E se apaixonam como se fosse durar pra sempre! (Gaiato).

- Espera aí, não tem nada mais maravilhoso do que mulher apaixonada: o carinho, o sexo... – recorda-se Mauro.

Até Sibelino concorda:

- A paixão é a única coisa que vale a pena na vida!

- Vinhozinho, friozinho, fome pra caramba... – Mauro ainda sonha.

- O que eu não entendo é como, sendo tão pragmáticas, elas se apaixonam por sujeitos como nós! – Gaiato filosofa.

- Vocês não se envergonham de falar tão mal das mulheres? – Mauro enlouquece.

- Elas merecem! – Sibelino sibila.

- Nós também! – Mauro deve estar com dor de pâncreas.

- Mas nós somos homens! – justifica Sibelino.

- Sabe o que me tranqüiliza? – Mauro agora é um romancista cínico arrependido.

- O quê? – dois manifestam-se.

- Quando estão sozinhas, elas falam da gente com muuuito mais perspicácia!

4 comentários:

Marília Salles disse...

bela provocação!

como boa ou má mulher que sou, fui checar imediatamente a crônica, e para minha surpresa me vi em cada linha...

“o jogo feminino” é minucioso e fascinante. Às vezes ao me distanciar e olhar de fora, é possível ver um espetáculo tão completo que quase não vejo falhas, e quando há qualquer falha ela é assumida como parte do jogo, que quase não se vê, chega ser perfeito.

talvez a nossa perspicácia esteja no fato de sermos “emocionais, sentimentais e sonhadoras”, tudo para nós se torna tão visceral, que acabamos por sair da superfície e a agudeza do nosso olhar nos faz penetrar por caminhos desconhecidos para vocês, homens.

acabou mostrando a pequenez feminina de maneira tão grandioza e certeira que fui obrigada a comentar...

abraço,
de uma mulher.

edson coelho disse...

marília, é isso mesmo: tão visceral que sai da superfície, gera um olhar agudo que penetra em caminhos desconhecidos. obrigadão pelo seu comentário, e não perca a próxima crônica: ela dá uma boa detonada na obtusidade dos homens, sempre com o tom bem-humorado da provocação.

Diógenes Brandão disse...

Quando minha filha ainda estava em gestação no forte útero de minha primeira namorada (cmeçamos, eu com 14 anos, ela com 15), quis que ela fosse mulher. Mulher, do gênero e espírito feminino, pois assimilava que assim me preucuparia menos, ao contrário do senso comum de que as mulheres dão mais "dor de cabeça" as pais, talvez pela ignorância de que as meninas são presas fáceis da malandragem feminina.

Hoje minha filha aproximasse dos 4 anos e eu, o pai, cada vez mais percebo o quanto foi melhor que ela tivesse a "peteca", no lugar do "bilau". Falo isso porque ela desde já é forte, exigente, austuta, perpicaz e sensivel, tanto que é capaz de seduzir com sua pseudo-ingênuidade e assim acaba ganhando, como todas as mulheres fazem.

Reunindo as demais características enunciadas na postagem, minha filha será ao certo a soma dos potenciais que emanam das almas femininas, prontinhas para superarem os desafios impostos pelo melindre masculino, ainda este século.

edson coelho disse...

diógenes, faço minhas suas palavras, aplicadas à minha filha prestes a completar quatro anos.